terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

CRISTO E MARIA MADALENA


No Código da Vinci, Maria Madalena torna-se na peça fundamental do romance.

Terá ela casado com Cristo e terá tido descendência ligada à dinastia merovíngia e da qual Plantard seria um descendente?

Esta ideia não nasceu com Dan Brown, mas com Lincoln, Baigent e Leigh

 Lincoln, Baigent e Leigh

 

Em 1969 o actor e escritor de ficção científica Henry Lincoln leu Le trésor maudit  de De Sèze que o inspirou

Diz ter descoberto mensagens codificadas falando da morte de Dagoberto II e do seu tesouro.

Fez dois documentários para a BBC sobre o mistério de Rennes-le-Chateau

Em resposta a de Sèze afirmou que foi ele que descobriu os Dossiers Secrets

Associou-se com Baigen e Leigh e no seu primeiro livro Dossiers of Henri Lobineau consideram os dossiers como verdadeiros e escritos por Plantard e Cherisey com o pseudónimo Philippe Toscan du Plantier

No livro Santo Sangue, Santo Graal desenvolvem a ideia do casamento e descendência de Maria Madalena, tema retomado e ampliado por Dan Brown

Lincoln, Baigent e Leigh processaram Dan Brown por plágio, mas perderam o processo

Notemos por curiosidade que o nome de Sir Leigh Teabing é composto pelo nome de Leigh e pelo anagrama de Baigent

Numa entrevista dada em 3 de Fevereiro de 2005ao Channel Four disse que o casamento de Maria Madalena era apenas uma hipótese:

·         Tony Robinson: 
Do we have any evidence that there was a child?

·         Michael Baigent: 
There's none whatsoever – that’s purely hypothesis on our part – but I think it's a plausible hypothesis - that the Holy Grail is the bloodline of David – and if Jesus and Mary Magdalene had been married and she was pregnant with this child – "yes, she would have carried the Grail to France" – and I think this is the way that we need to look at this material – Is it true? I don't know – Is it plausible? Yes.

·        Tony Robinson: 
So the inspiration for “The Da Vinci Code” and a whole Canin of secret Grail Hunts is no more than a Big Guess...

  

Quem era Maria Madalena?

 

Maria Madalena em si não é uma personagem única

No Evangelho aparecem em citações diferentes Maria de Magdala, Maria de Betania e a pecadora

 

·        Entre elas estava Maria de Magdala

Mt 27,55

 

·        Maria de Magdala e a outra foram visitar o sepulcro

Mt 28,1

 

·        Entre elas Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e José

Mc 15, 40

 

·        Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios

Lc 8,2

 

·        E uma mulher chamada Marta recebeu-a em sua casa. Tinha uma irmã chamada Maria

Lc11, 38

 

Para lá de Maria de Magdala e Maria Madalena surge ainda a pecadora, a que a tradição também atribuiu o nome de Maria Madalena

Nas origens, os Padres da Igreja mantiveram a distinção entre as três mulheres.

Desde os princípios do século III DC a tradição identifica Maria Madalena com Maria de Betania, com Maria de Magdala e com a pecadora, aglutinando estas três personagens num culto único da pecadora

Em 1516, Luísa de Sabóia, mão de Francisco I pediu a François du Moulin de Rochefort para escrever um livro sobre Maria Madalena. Este, atendendo à dificuldade de saber de quantas personagem se tratavam, pediu apoio ao seu mestre Jacques Lefèvre d’Étaples

Após um estudo profundo e apoiado pelos primeiros Padres da Igreja como Origenes, Crisóstomo, Jerónimo e Ambrósio, Lefèvre concluiu contra a corrente conservadora da época

A polémica instalou-se e não abrandou mesmo após Lefèvre ter reduzido as Marias para duas - Maria de Magdala e Maria de Betania

Chamado a intervir o para Gregório I (Gregório o grande) declarou que Maria de Magdala, Maria de Betania e a pecadora eram a mesma mulher.

Sugeriu-se que com esta interpretação errada o papa quisesse combater a devoção cada vez maior a Maria Madalena, contrária à linha cada vez mais patriarcal que a Igreja estava a seguir

O dia dedicado a Maria Madalena até 1969 celebrava Maria Madalena como penitente. A partir de 1969, Maria Madalena não é mencionada como pecadora

A maior parte dos artistas retrata Maria Madalena como pecadora que se arrependeu.


Os evangelhos apócrifos gnósticos e o casamento de Jesus

 

Definição de apócrifo 

Os evangelhos apócrifos são textos que não pertencem aos canónicos, ou seja, os aprovados pela Igreja e reunidos na Bíblia

Existem escritos apócrifos no Antigo e no Novo Testamento

Cultivam os mesmos géneros literários – evangelhos, actas, epístolas, apocalipses

Alguns foram considerados heréticos por defenderem teses não aceites pela maioria 

 

Definição de gnose

 

É um movimento filosófico e religioso que teve grande desenvolvimento nos primeiros séculos

Propõe o dualismo entre um Deus bom que criou a alma imortal e um Deus mau ou demiurgo que criou o mundo físico e aprisionou a alma no corpo

A salvação não seria para todos mas só para os iniciados

 

O Evangelho de Filipe e o casamento de Jesus

 

·        Maria Madalena estava grávida na altura da crucifixão. Para garantir a segurança do filho ainda não nascido de Jesus Cristo, não teve outro remédio senão fugir da Terra Santa. Com a ajuda o tio de Jesus, José de Arimateia chegou a França, nessa altura conhecida por Gália, onde encontrou refúgio seguro entre a comunidade judaica. Foi aqui, em França, que deu à luz uma filha que se chamou Sara

Dan Brown

 Dos Evangelhos apócrifos, só o de Filipe menciona Maria de Magdala como companheira de Jesus

A passagem mais importante é citada por Dan Brown 

·        E a companheira do Senhor é Maria Madalena. Cristo amava-a mais que a todos os discípulos e costumava beija-la muitas vezes na boca. Os outros discípulos sentiam-se ofendidos e por isso expressavam a sua indignação. Perguntavam-lhe: “Por que é que a amas mais do que a todos nós?”

 

Este texto não prova que Maria Madalena seja a mulher de Jesus

Esta afirmação não se encontra em mais nenhum outro evangelho apócrifo

 

O significado da palavra companheiro

 

Em continuação da citação do Evangelho de Filipe, Sir Leigh Teabing afirma no Código da Vinci

 

·        Como qualquer estudioso do aramaico lhe dirá, a palavra companheira, naquele tempo, significava literalmente esposa

 

O Evangelho de Filipe está escrito em copta e não em aramaico

Em grego companheiro significa apenas companheiro – p.ex. S.Paulo fala no companheiro de Filomenon

Em aramaico não há nenhuma palavra que signifique simultaneamente companheiro e esposa

Para os gnósticos, que desprezavam a sexualidade, só poderiam compreender as relações homem-mulher como companheirismo para a preparação da salvação. Companheira seria sinónima de colaboradora


Jesus beijou Maria Madalena na boca?

O original do Evangelho de Filipe estava muito maltratado, faltando muitas palavras

Neste caso concreto no original estava escrito beijando-a em…tendo sido a palavra boca acrescentada pelos estudiosos do texto para preencher o espaço que faltava

·        You should know that because the poor quality of the papyrus, a word or two is missing in the original. The text reads “Jesus kissed her often in the (blank)”So scholars fill in the blank with the word mouth, face or forehead, etc... Actually for all we know, the text might have said “the hand” or even “ the cheek “since the statement implies that he also kissed his other students

E.W.Lutzer 

 

Significado da palavra beijo

O objectivo deste evangelho é transmitir um conhecimento esotérico através de palavras e metáforas místicas

É uma iniciação sobre as núpcias espirituais entre Deus e a alma humana

Estas núpcias realizam-se pelo sopro ou pneuma que comunica Cristo aos seus verdadeiros discípulos

Em muitas passagens deste evangelho, abraço e beijo são palavras usadas para transmitir o sopro ao iniciado

Alem disso em hebreu beijo significa respirar em conjunto

Neste contexto místico Maria Madalena aparece mais como o discípulo perfeito que como a amante de Cristo.

 

O casamento no Evangelho de Filipe 

Este evangelho como todos os evangelhos gnósticos defende um casamento sem sexualidade

 

·        If there is a hidden quality to the marriage of defilement, how much more  is the undefiled marriage a true mystery .Is not fleshy but pure.  It belongs not to the desire but to the will

 

Extraido de http://www.gnosis.org/naghamm/gop.html

 

No mesmo evangelho-se

 

·        free men and virgins are those called Christians that possess the resurrection, the cross, the light and the holly spirit opposed to animals, slaves and defiled women 

 

O celibato de Jesus

·        O decoro social da época praticamente proibia que um judeu adulto não fosse casado. O costume judaico condenava o celibato, e a obrigação de qualquer pai era procurar uma esposa adequada para o filho


Dan Brown

 Em contraste com Jesus muitos apóstolos estavam casados

 

·        Não temos o direito de levar connosco nas viagens, uma mulher cristã, como os restantes Apóstolos?

I Cor. 9,5

 

Esta citação mostra que a igreja não procurava esconder que os apóstolos estavam casados e que tinham esse direito. Não haveria portanto motivos para esconder o casamento de Jesus.

Sugeriu-se que como Jesus funcionava como se fosse um rabino, deveria estar casado, como era habitual nos judeus.

Todavia Jesus não era tecnicamente um rabino, era antes alguém que pregava não seguindo muitas vezes a ortodoxia e sem lhe ter sido atribuído algum título. É por esta razão que os judeus perguntaram a Jesus com que autoridade dizia certas coisas

 

·        E perguntaram-lhe: “com que autoridade fazes estas coisas?

·        Quem te deu autoridade para as fazeres?

Mc 11,28

 

Por outro lado Jesus fala do celibato por vocação, dos eunucos do Reino de Deus

 

·        Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmo, por amor ao Reino dos Céus

Mt 19, 12

 

Nalguns sectores do judaísmo, defendia-se o celibato como vocação. Era o caso da seita dos essénios, como se tornou manifesto nos Manuscritos do Mar Morto

 

Será lógico aceitar o casamento de Jesus?

 

É difícil dar uma resposta a esta questão porque implica interrogar os desígnios de Deus

Deus não é homem e por isso não podemos entender a sua lógica. Para nós o mistério da Santíssima Trindade é incompreensível e impenetrável.

Deus fez aparecer no mundo um seu Filho, não gerado, igual a ele (consubstancial no Credo)

Alguém sendo a matéria de Deus, poderia ter casado e ter filhos.

Cristo veio ao mundo para sofrer com os homens e pregar uma mensagem de salvação que acabaria com a morte na cruz. Tratava-se de uma missão temporal que acabaria com a sua morte.

Nesse sentido faria sentido casar? Acho que não. Cristo não era totalmente homem. Não estaria inclinado para o amor humano – só sentiria amor pelo Pai. Não faz sentido a procura do prazer carnal pois isso seria uma característica totalmente humana.

E ter filhos? Como entender ter filhos que seriam “ netos” de Deus sem qualquer missão a cumprir?

Se entendêssemos que Cristo era um ser humano era um ser humano divinizado por Constantino ou um deus secundário como pretendem os gnósticos seria possível.

Creio que para responder a esta pergunta seria preciso responder a outra – quem foi Cristo? Teria sido apenas um ser humano, um profeta, ou seria filho de Deus? Só a fé poderá responder a esta questão.

domingo, 18 de janeiro de 2009

A PESSOA CRISTO

A assunção que Cristo é filho de Deus é o mistério fundamental da fé cristã e portanto indiscutível. Este facto não impede que se tenha raciocinado sobre este mistério para o entender melhor mas é preciso não esquecer que se tratarão de ideias elaboradas pelo homem e que por mais categorizado que seja o pensador poderão estar ou não certas e nunca poderiam ser elaboradas como dogmas.

 Cristo, Deus-homem

 Os Evangelhos não nos dizem nada sobre a biologia de Cristo

Eu penso que Cristo, vindo na eternidade, veio passar na terra um tempo previamente estabelecido para cumprir uma missão cujos resultados sempre conheceu.

Como seria esta harmonia perfeita Deus-homem. Seria um Deus com aspecto exterior de homem

Ou um Deus com um sopro de Deus?   

Para mim só a primeira hipótese é de considerar. Antes de vir à terra Cristo já existia assim como continuou a existir depois de ter morrido.Com esta premissa, artigo de fé, Cristo teria sido plenamente Deus embora na sua fase terrena tivesse aspecto de homem.

 A biologia de Cristo

 Com o decorrer dos tempos os crentes foram-se aproximando cada vez da imagem humana de Cristo idealizando que foi alguém que viveu e sofreu como nós para nos salvar.

Mas Cristo teria uma biologia igual à nossa?

Os Evangelhos não dão a mínima resposta a estas questões.

Cristo teria o mesmo património genético que nós? Cristo teria tido dores? Cristo terá sofrido?

Atendendo à missão de Cristo o património genético não existiria. Os genes garantem a transmissão de algumas características através das gerações, facto que não se enquadra na missão de Cristo

Cristo teria nervos que transmitissem sensações dolorosas? Não temos qualquer dado que nos permita responder. Poderemos pensar que se o objectivo da dor é avisar o organismo de uma lesão este mecanismo em Cristo seria desnecessário

Cristo terá sofrido na cruz? Não me parece. A sua morte representava o fim da sua missão na terra.

Cristo, tendo sempre como Deus a visão da eternidade, não poderia sofrer.

 A geração de Cristo

 Três hipótese se podem pôr:

·         Geração por relações conjugais

·         Geração por partenogénese – divisão do ovo sem participação dos espermatozóides

·         Intervenção divina total de um modo desconhecido

 Segundo o cardeal Ratzinger, actual para Bento XVI, todas as hipóteses são válidas.

Para mim só a última hipótese pode ser correcta. Se Cristo tinha uma estrutura biológica diferente, a sua geração também teria que ser diferente

 Conclusão

 O estudo da pessoa Cristo é fascinante mas deixa-nos envoltos na bruma do mistério pois por definição o mistério é inexplicável