segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Basta-me falar com Deus????

Basta-me falar com Deus ou preciso de aderir a um rito, de participar em comunidade na presença e adoração de Deus?

O homem é um ser que vive com os outros, que necessita de comunicar e para tal usa uma linguagem que acompanha com gestos e expressões. Para ele os sinais são importantes, podemos dizer que há uma linguagem dos sinais – sinais de afecto (ramo de flores, abraço, beijo, etc.) ou sinais de zanga

É por esta razão que o homem tem a necessidade de um exercício exterior da sua fé, para com outros em conjunto procurar estar com Deus, adora-lo, ouvi-lo

 

Para os cristãos a forma por excelência da participação colectiva é a missa.

A missa é um memorial de Cristo. Nela recordamos que Cristo foi um Deus feito homem que veio ao mundo para transmitir uma mensagem transcendente, que morreu e que ressuscitou

A missa não é assim a recordação de um enterro ou de uma morte, mas é a celebração da vinda à terra do filho de Deus

A missa deve assim ser praticada com alegria e ao mesmo tempo ser um meio de aumentar a nossa força para seguir os ensinamentos

 

A missa seja em que condições for celebrada tem o valor de memorial e permite a celebração colectiva.

Todavia a mensagem e vivência frutificam mais em condições óptimas.

A missa é um acto de alegria. Para isso as igrejas devem ter luz, os cânticos devem ter animação e toda a celebração deve ser viva

A missa deve levar até Deus. A cerimónia deve-nos encaminhar para a Eucaristia, razão de ser primária da missa e todos os textos utilizados deveriam ser simples, claros e compreensíveis

A homilia deveria ocupar um lugar fundamental na formação e meditação mas para isso deveria ser compreensível e curta

 

A igreja é o local do culto e foi construída para tal objectivo. As igrejas antigas com a sua grande altura e a sua arquitectura facilitavam a oração.

Tinham porem dois grandes inconvenientes

Um é a falta de luz. As igrejas não tinham janelas ou quando havia aberturas estas estavam preenchidas com vitrais. Estava subjacente a ideia que para participar na missa ou para orar, os fiéis não deveriam ter qualquer contacto com o exterior. Parece-me que a falta de luz impede a alegria própria da nossa situação de crentes.

Uma outra questão é a sumptuosidade. Muitas igrejas, embora autênticas obras de arte, esmagam pela sua grandiosidade e chocam pela sua riqueza

 

 A missa está centrada na Eucaristia como sequência de um pedido de Cristo – sempre que o fizerdes, fazei-o em meu nome.

Terá a missa o ritmo e a forma adequados aos tempos modernos? Eu penso que não. A última reforma profunda da missa deveu-se julgo eu, a S. Tomás de Aquino. Trata-se de um trabalho notável que ainda hoje é totalmente válido. Todavia, muitos textos são muito formais e de compreensão difícil, Em muitas igrejas os cânticos não têm ritmo. Por vezes as homilias são demasiado longas.

Notemos porem que alguns padres conseguiram com inteligência superar estes problemas criando missas bem participadas

 

Ao falar do culto cristão vem logo à cabeça a figura do padre. O padre é um homem, tão humano como nós, que se sentiu chamado por Deus para servir os crentes e todos os homens em geral. Nem sempre é assim, mas o facto de por vezes um padre não ter sentido o chamamento ou tê-lo perdido, não invalida a sua missão

 

Os padres devem casar? Eis uma questão para que não tenho resposta. O padre fez um voto de castidade para se dedicar totalmente a Deus e a igreja. Viveria assim livre doutras preocupações ou desejos materiais e sem a pressão de una mulher que poderia não compreender a sua missão. Todavia nem sempre é assim. Por vezes o padre no decorrer na vida vê que voto não lhe foi bem explicado ou que as circunstancias mudaram, casa-se e abandona o sacerdócio. Outras vezes, o que é pior, junta-se com alguém ou pratica aberrações como a pedofilia

Podemos pensar que as razões que apontamos para o celibato dos padres não são absolutas e poderão não estar certas. O facto é que vemos padres protestantes caçados que são exemplares e padres católicos celibatários que são uma vergonha.

Julgo que se deveria fazer um debate amplo sobre este tema

 

Faz sentido as mulheres não poderem exercer o sacerdócio? A recusa actual parece-me uma herança da tradição judaica em que a mulher é colocada num papel secundário, ideia que ainda hoje se mantém nas práticas religiosas judaica e islâmica.

As religiosas são muito mais respeitadas pelo povo que os padres. Muitas religiosas têm feito trabalho meritório, generoso e dedicado. Algumas mostraram ter uma grande cultura religiosa.

Parece-me que é uma situação a ser revista

 

A oração é uma peça fundamental do culto. Trata-se de nos dirigirmos a alguém que não tem dimensão, não ocupa espaço – está em toda a parte -, não vive no tempo – vive na eternidade. É um diálogo entre um ser visível todo insignificante e um não ser invisível, todo-poderoso.

Pode-se fugir em parte a esta dificuldade recorrendo à intercessão de Nossa Senhora ou dos Santos.

Eu por mim prefiro tentar embora com dificuldade dirigir-me directamente a Deus – ajuda-me a entender melhor o Grande Mistério.

 

 

A oração tem um lado contemplativo e dialogante vem que contemplamos e agradecemos a presença de Deus e em que lhe pomos os nossos problemas e pedimos que nos ajude. Sei que Deus me mandará pistas difusas que terei de encontrar e desenvolver.

Pode haver ainda um lado directamente peticional em que peço directamente a Deus que me resolva um caso concreto. Eu sei que o que me pedirdes será conseguido e que a fé remove montanhas, mas falta-me esta fé plena

 

O céu e o inferno existem? Haverá um Deus vingador e castigador que castiga para sempre os pecadores

Penso que as descrições bíblicas do inferno são uma alegoria que transmitem uma mensagem.

O destino final da nossa alma é depois da morte do corpo ir para o céu e contemplar Deus. Para o fazer tem que estar livre do que acumulou de mal na sua estadia terrena e por isso será sujeita a um período de purificação em que não contemplará Deus. Este período de não contemplação de Deus será de grande sofrimento e representa o Inferno.

Custa-me considerar um inferno físico com fogo eterno até porque sendo a alma imaterial, ela não é queimada.

Custa-me também aceitar um Deus castigador que condene para uma eternidade

 

Qual o valor da confissão? Quando fazemos uma coisa mal feita sentimo-nos mal e quanto atingimos outros por vezes andamos com a carga da culpa. Por vezes sentimos necessidade de pedir desculpa.

Compreende-se assim que às vezes sentimos necessidade de pedir desculpa a Deus e sentir que somos desculpados mostrando intenção e arranjando estimulo para uma caminhada melhor

Mas basta pedir directamente a Deus ou devo confessar-me? A mim parece-me que a resposta tem a ver com o equilíbrio psicológico. Se após uma conversa com Deus sinto que fiquei com a alma livre, tudo bem. Por vezes poderei sentir a necessidade de contar as minhas faltas a alguém que me ouça, me aconselha e transmita o perdão em nome de Deus.

Para mim, a confissão é um acto muito útil e indispensável, mas deveria ser voluntária e praticada com o ritmo que cada um achasse conveniente

 

Cristo não organizou uma igreja, não estabeleceu um rito. Pregou uma doutrina perfeitamente integrada no Antigo Testamento e deixou algumas pistas como a Eucaristia, o Pai Nosso e moral e o significado da mensagem

 

Cristo ao dizer a S.Pedro tu és Pedro e serás a minha pedra, criou os fundamentos do papado e da organização da igreja, mas não definiu o seu nível de autoridade. A autoridade de Pedro provinha apenas da sua autoridade moral.

Com o tempo e a aliança ao poder, o papado exorbitou no poder e os papas passaram a ter poder temporal, coisa que Cristo sempre recusou

 

Com o evoluir dos tempos o poder temporal da igreja diminuiu. Hoje está reduzida ao anacronismo do Vaticano e a uma ostentação dispensável.

Os papas actuais são figuras impolutas, cultos e sabedores, que apresentam ideias bem estruturadas. Não invocam a infalibilidade nem excomungam

Devo seguir rigorosamente aquilo que o papa diz? As afirmações do papa devem merecer sempre respeito e consideração e não ser recusadas a priori.

Todavia se depois de muito reflectir não concordar com alguma coisa que não colida com o núcleo fundamental da fé, não sou obrigado a segui-la

 

Nos primeiros tempos do cristianismo as celebrações eram muito simples. Os cristãos não eram muitos e por serem clandestinos não podiam fazer celebrações públicas. Muitas vezes eram repastos colectivos em que o pão e o vinho eram abençoados para se tornarem corpo e sangue de Cristo e se celebrar a Eucaristia.

 

Com o aumento do número de fiéis teve que se organizar o rito. É natural que desde o inicio estivesse centrado na Eucaristia a que se acrescentaram, na continuação da tradição judaica, leituras, salmos, orações e cânticos, tópicos que ainda hoje constituem o núcleo da missa.

Todavia hoje perdeu-se muito a vivência da Eucaristia. Há textos acrescentados que embora de alto valor literário são complexos e de difícil compreensão. As homilias na maior parte das vezes são extensas. Em muitos casos a missa tornou-se uma cerimónia longa e enfadonha

 

Nos textos da missa foi incluído o credo elaborado no concilio de Niceia. O credo foi elaborado no concilio como uma profissão de fé contra o arianismo.

Duvido que um texto tão elaborado tenha tido algum efeito sobre os fiéis mas o que me espanta é que contenha algumas imprecisões que nunca foram esclarecidas ou corrigidas.

Ao dizer-se que está sentado à direita de Deus Pai, devemos imagina-los sentados em duas cadeiras? Mas ao imaginarmos assim estamos a ter uma visão antropomórfica de Deus

 

O texto do credo também fala na ressurreição dos mortos. Surge aqui uma interrogação grave. Será que se refere à ressurreição da carne. Será que no Dia do Juízo Final os corpos adquirem vida, abandonam os túmulos e vão para o céu. Para mim é impossível idealizar assim, nem encontro nada escrito no Antigo ou Novo Testamento que leve para este caminho.

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