A ideia de Deus
É interessante pensar que a ideia de Deus apareceu no homem desde os primórdios da humanidade. O primitivo imaginou um Deus muito próximo dele, quase um homem com muito poder que mandava nas tempestades, nas sementeiras, na fertilidade, etc. Esta ideia foi-se modificando até se chegarem às grandes mitologias em que o mundo era governado por um conjunto de deuses todos com grandes poderes mas com defeitos humanos.
A religião judaica rompeu totalmente com esta concepção, surgindo com um monoteísmo absoluto – crença num Deus único, imaterial, sem imagem física, prégando uma doutrina transcendental, transmitindo ao homem ideais que o encaminhavam para uma vida melhor
Parece assim que teria havido uma preparação do homem para que através de progressos sucessivos pudesse adoptar soluções mais perfeitas. Em toda esta evolução foram dadas pistas que o homem com a liberdade que lhe foi concedida poderia seguir ou não
Seria de esperar que as semelhanças existentes nas várias religiões deveria levar a que todos os crentes se sentissem irmãos na fé e se juntassem para combater a miséria e trabalhassem para conseguir a paz no mundo.
Infelizmente muitos tiveram a arrogância de se considerarem os únicos detentores da verdade e trataram os outros crentes como hereges, infiéis, ímpios e procuraram impor pela força a sua religião surgindo as “ guerras santas” como as cruzadas e o actual fundamentalismo islâmico.
É pena esta mancha terrível na história das religiões. Enquanto Deus não impôs nada ao homem – deu pistas, ideias difusas, para optar, o homem quis ser mais que Deus e impôs uma opção triste e lamentável não identificável com os ideais que professa.
O mundo não terá remédio enquanto os crentes gastarem a sua energia a se degladiarem e a se matarem, em vez de se dirigirem a um mundo que precisa deles.
A fé
O que é a fé? A fé é o acto pelo qual acreditamos firmemente num facto ou afirmação que não podemos provar. Actos de fé não são excepcionais – fazemo-lo ao acreditar nas notícias, ao acreditar em factos históricos, ao acreditar nas pessoas. Na ciência existem postulados que são verdades não demonstradas em que se pede para acreditar como é o caso da geometria de Euclides
Todavia, a palavra fé está habitualmente reservada para a fé religiosa, ou seja para a fé num Deus revelado – conjunto de verdades indemonstráveis que mostram algo da natureza de Deus e que esboçam as relações entre o homem e Deus
O nascimento do cristianismo
A religião cristã foi-se formando e cimentando através de intervenções graduais.
O aparecimento de Deus a Moisés deixou uma marca única e indelével que implicou uma ruptura ideológica total. Foi revelado um Deus único e imaterial em oposição ao politeísmo e adoração dos ídolos, associado à apresentação de um código moral excepcional, os Dez Mandamentos.
Mudar uma fé para uma outra radicalmente diferente não foi fácil.
O Antigo Testamento diz que houve recaídas e por isso de quando em quando apareciam os Profetas, Os profetas não eram os que previam o futuro, mas sim mensageiros da palavra de Deus.
Finalmente Deus achou por bem mandar o Profeta por excelência, o seu Filho, Cristo. Cristo revelou um pouco mais da realidade de Deus ao revelar a Santíssima Trindade e prégou numa altura difícil da vida do povo, dando aos que o seguiram força moral e esperança.
Penso que Cristo foi o último Profeta. A partir de aí houve aparições de Nossa Senhora (Fátima, Lourdes, etc.) mas o seu conteúdo foi diferente do das mensagens dos profetas.
É importante notar que neste trajecto todo, Deus respeitou sempre a nossa liberdade – o homem pode sempre optar em aderir ou não ao que lhe era revelado
As verdades da fé
O enunciado das verdades a acreditar é longo?
Na minha fé, a fé cristã, é curto
Ao Deus único e imaterial do Antigo Testamento o Novo explicita-o como Santíssima Trindade e esta manifesta-se aos homens pelo envio à terra de Cristo, filho de Deus, membro da Santíssima Trindade
Esta é a grande verdade a acreditar
Para lá disso no Novo Testamento encontra-se uma mensagem, indissociável da presença de Cristo que apela para um ideal de vida para abraçar.
Há também um apelo a reuniões colectivas, inicio de um rito – sempre que o fizerdes e a criação do papado e da Igreja – tu és Pedro e sobre esta pedra edificarás a minha Igreja
Cristo não escreveu um manual de religião, nem ditou o Novo Testamento, deu pistas para serem desenvolvidas.
O desenvolvimento das pistas valem pela qualidade de quem o fez e por terem sido aceites desde o início das comunidades de pé, mas afirmações dogmáticas que surgiram depois podem ser consideradas artigos de fé
Conversando com Deus
Eu poderei falar com Deus? Um modo de falar e estar com Deus é a oração. Mas o que é a oração? É uma tentativa de falar com Deus, um Ser que não vejo, que não conheço mas que sei que existe. Há técnicas e formas de oração, mas eu esforço-me por fazer um contacto directo procurando reflectir com Deus os grandes problemas da minha vida. Não peço nada pois Deus tem a visão do que eu preciso e tenho a certeza que mais cedo ou mais tarde Deus me enviará uma resposta, directa ou indirecta
Os santos
E chegar a Deus por intercessão dos santos? Os santos são seres humanos como nós que se destacaram na sua vida humana por um comportamento humano exemplar sempre coerente com a sua fé, mesmo que as atitudes implicassem grandes sacrifício, perseguição ou mesmo a morte. São para nós um exemplo a seguir, uma meta a atingir e o seu exemplo poder-nos-á dar força e esperança.
Será que fará sentido dirigir-me a um santo para que ele se dirija a
um santo para ele se dirigir a Deus em meu intermédio? Esta concepção parece-me muito antropomórfica. O Santo é um puro espírito que vive na contemplação de Deus. Não é, como poderia ser em termos humanos, um amigo do chefe ao qual se poderá dirigir falando de mim. E porquê haver santos “especializados” para um determinado pedido? E porquê ser apenas o santo daquela Igreja que tem uma acção eficaz?
O rito
Basta-me falar com Deus ou preciso de aderir a um rito, de participar em comunidade na presença e adoração de Deus?
O homem é um ser que vive com os outros, que necessita de comunicar e para tal usa uma linguagem que acompanha com gestos e expressões. Para ele os sinais são importantes, podemos dizer que há uma linguagem dos sinais – sinais de afecto (ramo de flores, abraço, beijo, etc.) ou sinais de zanga
É por esta razão que o homem tem a necessidade de um exercício exterior da sua fé, para com outros em conjunto procurar estar com Deus, adorá-lo, ouvi-lo