domingo, 17 de agosto de 2008

DIALOGANDO COM DEUS

A revelação

Na linguagem comum a palavra revelação define algo que surge bruscamente como novo e inesperado – a imprensa “revelou” um escândalo sobre alguém importante, “ revelou-se” um jogador de futebol, etc.
Num sentido estrito, quando se fala em revelação, fala-se em revelação divina.
Revelação provém do latim «revelare» que significa correr o véu que encobre um objecto. Ao abrir este véu com a revelação, Deus dá-nos alguma ideia sobre si próprio, adaptada para a nossa inteligência e nosso conhecimento

O homem fala com Deus

Eu posso falar a Deus? Com que linguagem? Ele ouvir-me-á?
Deus não tem imagem, não tem corpo, não sei o que é, é qualquer coisa que me transcende, que me ultrapassa e que reduz à insignificância a minha capacidade de pensador
Todavia sinto uma necessidade absoluta de dialogar com este Ser único que não conheço, não compreendo, mas faz parte integrante da minha vida
Neste diálogo, que alguns considerarão um monólogo, pedirei ajuda para compreender melhor o que estou a fazer nesta vida e o que se passa na outra vida, como me relacionar com Deus, como viver correctamente esta vida, qual a minha missão
As interrogações terão resposta? As respostas não serão claras pois certamente não as receberei por e-mail ou por carta, mas certamente me virão forças para pensar melhor e para agir melhor

O homem pode falar com os santos?

Desde os primeiros tempos os cristãos veneraram os mártires e os santos.
Enquanto havia perseguições os mártires foram o exemplo de uma fé tão forte e tão coerente que lhes custou a própria vida
Após Constantino acabaram as perseguições e portanto os mártires e surgiram os santos, cristãos que levaram uma vida totalmente coerente com a sua fé.
Certamente os santos e mártires começaram por ser venerados pelo seu exemplo de vida. Acharam mais fácil rezar aos santos atendendo a que associavam uma imagem mais concreta e mais próxima do homem que a de Deus, mas pensaram e acreditaram que poderiam interceder por Deus e fazer milagres e que por vezes este poder estava confinado a um santo de uma determinada Igreja.
O que pensar disto?
A mim parece-me evidente que quando falamos com os santos, Deus ouve e se assim entender age e nessas circunstâncias os santos não têm uma intervenção directa – seriam apenas facilitadores do diálogo.
A facilitação do diálogo e o exemplo de uma vida são suficientes para dar aos santos um papel privilegiado. Não é preciso mais.

A propósito da morte

O homem nasce, vive e morre mas enquanto ele não optou em nascer e pode fazer imensas opções na sua vida, a morte aparece como uma realidade não optada, acrescentada.
Falar da morte é sempre pensar na vida e no seu sentido. Pensar se a morte é a ida para o nada ou o caminhar para uma nova vida.
Aqui contam as opções espirituais de cada um. Se se opta por uma ida para o nada é lógico perguntar qual o sentido da vida que levamos acaba-se um capítulo da nossa vida sem se abrir outro.
Se acreditarmos numa outra vida temos que nos interrogar qual o significado desta vida e como a viver

Há uma outra vida?

Se a razão nos poderá fazer inclinar (ou não) para uma resposta afirmativa só a fé nos poderá dar uma certeza absoluta.
Mas sob que forma decorre a outra vida?
Desde o início do cristianismo se conceberam três classes na vida eterna – inferno, paraíso, purgatório tendo-se acrescentado posteriormente o limbo.
Esta concepção admite um Deus castigador e vingador que não se ajusta ao Deus que deu ao homem a opção da liberdade
E qual a forma física do homem na outra vida? Ao se falar dos fogos do inferno admite-se uma ressurreição total pois os corpos sofreriam com os efeitos do fogo. Penso que as descrições bíblicas do inferno, são uma das muitas alegorias de que a Bíblia é rica. Se atentarmos à descrição do estado físico de Cristo após a sua ressurreição vemos que ele não era igual, era de um certo modo imaterial pois atravessava portas fechadas.
Parece-me plausível admitir que na outra vida se trata da presença da alma sob uma forma que desconhecemos, cujo objectivo seria contemplar Deus. Se a alma não estivesse pura teria um tempo de purificação antes de poder contemplar Deus.

Satanás

Durante todos os tempos Satanás, o diabo e os demónios estão presentes na ideologia cristã.
Para mim é inaceitável que um Deus todo poderoso tenha criado um anti-Deus
O homem tem que lutar contra tentações e vencê-las é uma das vitórias da nossa opção pela liberdade.
A ideia do diabo corresponde à educação pelo medo. Assim como há quem diga a uma criança – vê como te portas, vem aí o papão, dizia-se aos cristãos – tem cuidado porque o Diabo está atento.
Esta ideia para lá de errada é anti-pedagógica pois não educa o cristão na necessidade de fazer opções livres e correctas

O baptismo

Nos três primeiros séculos do cristianismo, o baptismo era feito apenas em adultos, seguindo o exemplo de Cristo. Era um rito de iniciação pois era precedido de uma formação cuidadosa.
A partir do século VI passou-se a fazer só em crianças
O baptismo em crianças nasceu da ideia que o homem nasce marcado indelèvelmente com o pecado original.
É totalmente inaceitável que Deus possa castigar quem como uma criança não tem capacidade para optar.
Alem disso a criança não se compromete em nada o baptizado.
Parecia-me lógico regressar ao baptismo de adulto após uma preparação profunda e cuidadosa. Só assim teríamos cristãos preparados e conscientes capazes de intervir no mundo. Poderiam argumentar que o número de cristãos diminuiria grandemente. Em termos estatísticos seria verdade, mas o que ganhamos em ter muitos cristãos pouco praticantes em vez de poucos que poderiam marcar uma presença no mundo?

3 comentários:

Lucasdasilva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucasdasilva disse...

Meu caro Mjhalpern
Primeiro, agradeço pela informação enviada sobre a bela ideia de criar este blogue em filosofia da religião.
Segundo, porque, como deve saber, os ferreiras são descendentes de cristãos novos, tendo eu nascido numa aldeia de cristãos novos.
Terceiro,felicito-o pelo excelente blogue sob temas filosóficos. Li a primeira página e concordo com a reflexão. Deus o abençoe ricamente para produzir literatura instrutiva para os seus leitores. Já agora, deixo o endereço do meu blogue em http://haja-luz.noah-inc.net
Cjaferreira

Anónimo disse...

Muito legal o blog amigo, obrigado pela visita ao IChTUS Gate. Se quiser fazer parceria fique à vontade, é só linkar o IChTUS no blog. Paz!