sábado, 30 de agosto de 2008

Fundamentalismo religioso

O fundamentalismo religioso é certamente o exemplo mais evidente e mais lamentável de uma má interpretação e uma má utilização da fé. O raciocínio levando ao fundamentalismo é muito simples – a fé dá-me a certeza de possuir a verdade divina; por conseguinte se eu tenho a verdade absoluta, os que não têm a minha religião são hereges.

Já os romanos tratavam por bárbaros os que não tinham a mesma religião e a mesma cultura e chegaram a massacra-los, mas foi com o advento do cristianismo que o fundamentalismo se generalizou. Começou com perseguições generalizadas aos cristãos mas quando o cristianismo se tornou poder, a situação inverteu-se.

Em 313, CONSTANTINO proclamou pelo édito de Milão a liberdade de culto. Com TEODÓSIO, em 380, o cristianismo tornou-se religião de Estado. Chegou rapidamente a tentação da Igreja utilizar o braço secular para combater as heresias e de os imperadores utilizarem a Igreja para aumentar o seu poder através de uma religião unitária.

A jurisprudência pagã não distinguia a autoridade civil da autoridade religiosa. CONSTANTINO promulgou um primeiro decreto contra as heresias a que se seguiram outros promulgados pelos imperadores que lhe sucederam, decretos reunidos mais tarde num Codex. Inicialmente estes decretos permitiam várias sanções mas raramente a morte. Era missão dos bispos pronunciarem-se sobre a heterodoxia e dos juízes promulgar a sentença. Pouco a pouco os bispos foram assumindo poder temporal como foi o caso de ARIBERTO, bispo de Milão, que ocupou o castelo de Monfort e prendeu e supliciou os hereges.

É particularmente interessante considerar o que se passou na Península Ibérica. No reino dos Godos observou-se sempre uma aliança completa entre a Igreja e o poder temporal. Antes de chegarem ao Ocidente, os godos tinham-se convertido ao cristianismo. No fim do Século IV converteram-se ao arianismo tendo começado imediatamente a discriminação contra os cristãos até ao ponto do rei Leovigildo ter procurado impor o arianismo ao seu povo. Quando o seu filho Hermenegildo, cristão, se revoltou contra ele, este dispôs-se a perdoá-lo se ele abjurasse a sua fé, tendo sido morto por se ter recusado.

Após a conversão de Recaredo ao cristianismo a maior parte da população abraçou esta religião e as perseguições viraram-se contra os judeus. Os concílios de Toledo confirmaram esta política.

Após a conquista da península pelos árabes surgiu uma época de tolerância religiosa que só não foi seguida pelas duas últimas dinastias, os almoravidas e os almoadas. Esta tolerância continuou a ser praticada pelos cristãos após a Reconquista ao contrário da política seguida por outros povos cristãos, como os francos.

Esta tolerância manteve-se até ao século XIII altura em que, devido à heresia cátara, nomeadamente a albigense, a Igreja chamou para si o direito de punir pela morte os hereges, nomeando inquisidores que actuavam com aval da sociedade civil.

A Inquisição foi criada em 1220 e a tortura autorizada em 1225. A justificação teológica foi dada por S. Tomás de Aquino.

É mais grave corromper a fé, que assegura a vida da alma, do que falsificar moeda que permite sobreviver à vida temporal. Por consequência, se os falsificadores são imediatamente condenados à morte pelos príncipes seculares, por maioria de razão os hereges que estão convencidos da sua heresia poderão não só serem excomungados mas também com toda a justiça condenados à morte.

Em 1478 o papa SISTO IV a pedido dos Reis Católicos aprovou a instalação da Inquisição em Espanha que mais tarde se estendeu a Portugal. O papa Paulo III confirmou a constituição da Companhia de Jesus.

LUTERO indignado com a venda de indulgências e a corrupção da Igreja escreveu um texto altamente crítico. Como resposta o papa LEÃO X ordenou que fossem queimados todos os escritos de LUTERO. Foi criado assim o maior cisma da igreja cristã e mais uma vez a intolerância esteve na sua génese.

Todavia e Reforma surgiu como um novo foco de intolerância. CALVINO com a ideia da predestinação absoluta governou Geneve com autoridade e tomou atitudes extremas com a morte pelo fogo de Michel Servet. Esta intolerância espalhou-se pelos países de maioria protestante.

Porquê o fundamentalismo?

O fundamentalismo tem estado associado aos regimes políticos absolutos. Tratou-se de uma aliança contra natura apenas compreensível pela filosofia política da época. Tenhamos presente que a palavra tolerância entrou no nosso vocabulário apenas no Renascimento, devido a LOCKE.

MOISÉS, CRISTO E MAOMÉ representam as três religiões monoteístas mais seguidas representando muitos milhões de crentes, religiões que se poderiam ter inspirado parcialmente do monoteísmo solar do século IV AC.

Todas estas crenças serão falsas? Haverá só uma verdadeira? Julgo que temos que aceitar a fé de quem acredita, seja que religião for. Provavelmente a limitação da nossa inteligência e as diferentes culturas e tradições impedem o homem de ver Deus em toda a sua grandeza, conseguindo ter apenas visões parcelares não totalmente semelhantes mas todas capazes de levar a uma fé absoluta.

Por esta razão todos os crentes deveriam amar-se, respeitar-se como irmãos e procurarem compreender-se.

É totalmente incompreensível como o fundamentalismo continua neste século – fundamentalismo árabe, ETA, IRA, limpeza étnica, continuando a observarem-se ideias erradas e deturpadas de fé associadas a abusos de autoridade em domínios religiosos, filosóficos, políticos e mesmo científicos. É importante reflectir como isto é possível num mundo que se intitula democrático e solidário, respeitando as ideias e a dignidade dos outros.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

FÉ E CIÊNCIA

Ignorância e fé

Por vezes tem-se confundido tradição com verdade religiosa. Simples opiniões difundidas numa determinada época foram consideradas verdades de fé.
Alguns conceitos da ciência da época ligaram-se a uma filosofia misterial erradamente promovida a dogma e artigo de fé
Esta estranha associação entre ignorância e um conceito errado de fé foram em determinadas épocas um grande entrave para o avanço da ciência e a evolução do pensamento. Vejamos alguns exemplos.

Dissecção de cadáveres

A dissecção de cadáveres já se praticava em Alexandria no tempo dos Ptolomeus. ERASISTRATO (310-250 AC) e HERÓ de FILO (335-285 AC) deviam os seus conhecimentos anatómicos às autópsias que efectuaram.
Todavia estas práticas deixaram de se efectuar, e a anatomia galénica já era baseada exclusivamente na dissecção de animais. No início da Idade Média as dissecções humanas estavam proibidas devido à crença na ressurreição da carne e ao medo inspirado pelos cadáveres.
Foram necessárias muitas lutas e muita perseverança para se chegar até VESÁLIO.

Copérnico e Galileu

Durante catorze séculos foi aceite como indiscutível o modelo proposto por Ptolomeu para explicar o movimento dos astros, chamado geocêntrico por considerar que a terra estaria imóvel e todos os astros se moveriam sobre a terra segundo um sistema combinado de circunferências excêntricas e de epiciclos.
No século XVI COPÉRNICO no livro Revolução das órbitas celestes, dedicado ao Papa Paulo III, propôs um sistema heliocêntrico em que o sol estaria imóvel e a terra se moveria à volta do sol, a lua à volta da terra e os outros planetas à volta do sol. Este sistema pondo em causa conhecimentos aceites como definitivos e “ desvalorizando” o papel central da terra no Universo, suscitou muitas criticas, nomeadamente de TYCHO-BRAHE, o maior astrónomo da época e de LUTERO que o apelidou de louco. Todavia a sua ideia foi bem aceite por altas personalidades da Igreja como o Cardeal SCHONBERG que se propôs mandar copiar o livro à sua custa e o Bispo TIEDMAN GIESE que lhe encontrou um editor.

GALILEU abraçou com entusiasmo essas ideias. Numa polémica com SOZZO e IDELLE COLOMBE que acusaram o sistema de COPÉRNICO de contrariar as Escrituras, GALILEU para os combater fez uma exegese pessoal da Bíblia. O Santo Ofício, pressionado pelo grande número de heresias existente sobre a Bíblia, condenou GALILEU e proibiu a leitura do livro de COPÉRNICO, interdição que levantou quatro anos depois.

Do lado protestante apareceram reacções iguais. A Universidade de Teologia Protestante de Uppsala após um julgamento solene condenou NILS CELSUS por ter defendido as ideias de Copérnico e proibiu-o de ensinar durante quarenta anos.

Evolucionismo

Quando DARWIN defendeu o evolucionismo, as suas ideias foram mal aceites, particularmente por protestantes que as consideraram contrárias às Escrituras.
Nos Estados Unidos, particularmente nos Estados do Sul, mantém-se uma polémica entre os criacionistas (os que seguem literalmente a versão bíblica da criação) e os evolucionistas. Tornou-se célebre devido à sua divulgação nos mass-média a condenação em 1925 de John Scopes pelo tribunal de Dayton (Tennessee) por ensinar o evolucionismo. Em 1981 o juiz Overton em Little Rock (Arkansas) após ter ouvido um grande número de especialistas decidiu que o criacionismo não poderia ser considerado como uma hipótese científica válida e assim não poderia ser ensinado como verdade científica, por ser contra o princípio da liberdade religiosa. Pela mesma razão condenou o balanced treatmet (tratamento equilibrado) ou seja o ensino simultâneo do criacionismo e do evolucionismo. Todavia o Kansas School Board of Education retirou o ensino obrigatório do evolucionismo das escolas públicas e George Bush Jr., retomou a ideia do balanced treatment com o nome de morality based education.

Estes exemplos demonstram como a ignorância associada ao poder temporal da Igreja ou do Estado pode dificultar o avanço das ideias e da ciência. Também se pode passar o mesmo nos meios científicos. Algumas vezes atitudes intransigentes de cientistas altamente conceituados impediram o avanço de novas ideias.

E hoje?

Actualmente estes conflitos ainda existem ou foram totalmente superados?
O mundo mudou muito. Por um lado as igrejas perderam autoridade e por outro lado a comunicação social permite uma informação rápida e uma discussão aberta
A não ser nos países teocráticos as igrejas estão separadas do estado e por isso perderam meios para obrigar a cumprir o que nunca deveriam ter imposto.
Ainda estão em juízos morais transformados em regras sobre alguns pontos, mas nestes domínios penso que em vez de obrigar os crentes se deveria passar para o diálogo, informação e formação de consciências, dando sempre ao crente a possibilidade de escolher

domingo, 17 de agosto de 2008

DIALOGANDO COM DEUS

A revelação

Na linguagem comum a palavra revelação define algo que surge bruscamente como novo e inesperado – a imprensa “revelou” um escândalo sobre alguém importante, “ revelou-se” um jogador de futebol, etc.
Num sentido estrito, quando se fala em revelação, fala-se em revelação divina.
Revelação provém do latim «revelare» que significa correr o véu que encobre um objecto. Ao abrir este véu com a revelação, Deus dá-nos alguma ideia sobre si próprio, adaptada para a nossa inteligência e nosso conhecimento

O homem fala com Deus

Eu posso falar a Deus? Com que linguagem? Ele ouvir-me-á?
Deus não tem imagem, não tem corpo, não sei o que é, é qualquer coisa que me transcende, que me ultrapassa e que reduz à insignificância a minha capacidade de pensador
Todavia sinto uma necessidade absoluta de dialogar com este Ser único que não conheço, não compreendo, mas faz parte integrante da minha vida
Neste diálogo, que alguns considerarão um monólogo, pedirei ajuda para compreender melhor o que estou a fazer nesta vida e o que se passa na outra vida, como me relacionar com Deus, como viver correctamente esta vida, qual a minha missão
As interrogações terão resposta? As respostas não serão claras pois certamente não as receberei por e-mail ou por carta, mas certamente me virão forças para pensar melhor e para agir melhor

O homem pode falar com os santos?

Desde os primeiros tempos os cristãos veneraram os mártires e os santos.
Enquanto havia perseguições os mártires foram o exemplo de uma fé tão forte e tão coerente que lhes custou a própria vida
Após Constantino acabaram as perseguições e portanto os mártires e surgiram os santos, cristãos que levaram uma vida totalmente coerente com a sua fé.
Certamente os santos e mártires começaram por ser venerados pelo seu exemplo de vida. Acharam mais fácil rezar aos santos atendendo a que associavam uma imagem mais concreta e mais próxima do homem que a de Deus, mas pensaram e acreditaram que poderiam interceder por Deus e fazer milagres e que por vezes este poder estava confinado a um santo de uma determinada Igreja.
O que pensar disto?
A mim parece-me evidente que quando falamos com os santos, Deus ouve e se assim entender age e nessas circunstâncias os santos não têm uma intervenção directa – seriam apenas facilitadores do diálogo.
A facilitação do diálogo e o exemplo de uma vida são suficientes para dar aos santos um papel privilegiado. Não é preciso mais.

A propósito da morte

O homem nasce, vive e morre mas enquanto ele não optou em nascer e pode fazer imensas opções na sua vida, a morte aparece como uma realidade não optada, acrescentada.
Falar da morte é sempre pensar na vida e no seu sentido. Pensar se a morte é a ida para o nada ou o caminhar para uma nova vida.
Aqui contam as opções espirituais de cada um. Se se opta por uma ida para o nada é lógico perguntar qual o sentido da vida que levamos acaba-se um capítulo da nossa vida sem se abrir outro.
Se acreditarmos numa outra vida temos que nos interrogar qual o significado desta vida e como a viver

Há uma outra vida?

Se a razão nos poderá fazer inclinar (ou não) para uma resposta afirmativa só a fé nos poderá dar uma certeza absoluta.
Mas sob que forma decorre a outra vida?
Desde o início do cristianismo se conceberam três classes na vida eterna – inferno, paraíso, purgatório tendo-se acrescentado posteriormente o limbo.
Esta concepção admite um Deus castigador e vingador que não se ajusta ao Deus que deu ao homem a opção da liberdade
E qual a forma física do homem na outra vida? Ao se falar dos fogos do inferno admite-se uma ressurreição total pois os corpos sofreriam com os efeitos do fogo. Penso que as descrições bíblicas do inferno, são uma das muitas alegorias de que a Bíblia é rica. Se atentarmos à descrição do estado físico de Cristo após a sua ressurreição vemos que ele não era igual, era de um certo modo imaterial pois atravessava portas fechadas.
Parece-me plausível admitir que na outra vida se trata da presença da alma sob uma forma que desconhecemos, cujo objectivo seria contemplar Deus. Se a alma não estivesse pura teria um tempo de purificação antes de poder contemplar Deus.

Satanás

Durante todos os tempos Satanás, o diabo e os demónios estão presentes na ideologia cristã.
Para mim é inaceitável que um Deus todo poderoso tenha criado um anti-Deus
O homem tem que lutar contra tentações e vencê-las é uma das vitórias da nossa opção pela liberdade.
A ideia do diabo corresponde à educação pelo medo. Assim como há quem diga a uma criança – vê como te portas, vem aí o papão, dizia-se aos cristãos – tem cuidado porque o Diabo está atento.
Esta ideia para lá de errada é anti-pedagógica pois não educa o cristão na necessidade de fazer opções livres e correctas

O baptismo

Nos três primeiros séculos do cristianismo, o baptismo era feito apenas em adultos, seguindo o exemplo de Cristo. Era um rito de iniciação pois era precedido de uma formação cuidadosa.
A partir do século VI passou-se a fazer só em crianças
O baptismo em crianças nasceu da ideia que o homem nasce marcado indelèvelmente com o pecado original.
É totalmente inaceitável que Deus possa castigar quem como uma criança não tem capacidade para optar.
Alem disso a criança não se compromete em nada o baptizado.
Parecia-me lógico regressar ao baptismo de adulto após uma preparação profunda e cuidadosa. Só assim teríamos cristãos preparados e conscientes capazes de intervir no mundo. Poderiam argumentar que o número de cristãos diminuiria grandemente. Em termos estatísticos seria verdade, mas o que ganhamos em ter muitos cristãos pouco praticantes em vez de poucos que poderiam marcar uma presença no mundo?

domingo, 10 de agosto de 2008

O INICIO......

PORQUÊ ESTE BLOGUE?

Muitos dos que me conhecem perguntarão: “Por que é que um professor de Bioquímica escreve um blogue destes, totalmente fora da sua especialidade”? Esta pergunta precisa de uma resposta.
O meu interesse por estes temas tem duas razões
A primeira razão tem a ver com o meu gosto pela filosofia. Quando no 7º ano de Ciências, na altura o ano que antecedia a entrada na Universidade, tive o primeiro contacto com a Filosofia, esta disciplina despertou em mim uma paixão que nunca desapareceu. Não tive coragem para mudar para o 7º de Letras, perdendo um ano, mas mantive sempre o gosto pela Filosofia frequentando tertúlias e lendo e escrevendo.
Uma outra razão tem a ver com um facto da minha vida familiar. O meu pai era judeu e a minha mãe católica, ambos não praticantes. Quando nasci o meu pai fazia questão na circuncisão e a minha mãe no baptismo. Cedo concluíram que estavam a ter uma discussão inútil e resolveram não me dizer nada para eu quando adulto escolher livremente.
Quando pelos 18 anos tive consciência que não estava ligado a nenhum valor, senti um grande vazio. Fui lendo e pensando, tendo rapidamente chegado à conclusão que Deus existe. Rapidamente surgiram na minha cabeça perguntas angustiantes. O que é Deus? O que Deus quer de mim? Qual o meu destino? Como falar com Deus? Estas perguntas mantiveram-se sem respostas até que de um momento para outro senti-me inclinado para o catolicismo e resolvi baptizar-me.
É fácil de concluir que a minha formação religiosa pois não tive catequese e tudo o que aprendi foi feito como adulto (estava no 3º ano da Faculdade) fruto de uma opção, razões que me levaram a pensar, o que ainda hoje continua.
Este blogue resulta do desejo de partilhar estes pensamentos e refllexões.Todos os raciocínios que provêm do raciocínio humano são discutíveis e por isso haverá certamente quem não concorde. Seria muito interessante que este blogue se transformasse num fórum de discussão, quer directamente através deste blogue ou pelo e-mail mjhalpern1@netcabo.pt

A RAZÃO PODE CHEGAR A DEUS?

Deus, quem és?
Para mim concluir que existes é fácil , basta pensar que todas as causas são simultaneamente causa e efeito, isto é, que todas as causas são causadas
Muitas vezes quer na investigação quer ao escrever sobre o funcionamento do corpo humano fico maravilhado com a perfeição da máquina e interrogo-me sobre o seu criador.
Com o avanço da ciência tem-se recuado no objecto da criação. O Antigo Testamento diz que Deus criou todos os seres vivos um a um. Hoje com o advento do evolucionismo, não se aceita o criacionismo e vai-se recuando na origem dos seres vivos, mas chega-se sempre a um ponto de partida já existente na natureza e que portanto precisa de um criador
É evidente que não pode ser um ser semelhante a um homem todo poderoso, como os deuses que aparecem na mitologia. É um mistério que a inteligência não atinge. Tratar-se de um ser imaterial, criador e não criado sobre o qual não sou capaz de conceber qualquer projecção que o possa visualizar.
Esta dificuldade, reduz o Deus que eu consigo conceber como uma hipótese provável, mas não me diz nada sobre Ele, não me apresenta a Ele

O QUE È A FÉ?


A fé é uma aderência absoluta a uma verdade religiosa que não tem explicação racional. Como é que se chega a ela?
Raramente acontece por uma revelação directa de Deus, como aconteceu com S.Paulo. Em geral a intervenção de Deus é difusa e discreta, competindo a nós as opções.
No meu caso, o que sei é que de um momento para o outro passei a acreditar. Não tive a ideia de uma intervenção nítida de Deus. Alguma coisa aconteceu, haverá uma razão, mas o que me aconteceu não sei

O JUDAISMO

As grandes religiões( judaísmo, cristianismo, islamismo) têm um ponto comum a fé num Deus único. Esta ideia nasceu no judaísmo e foi transmitida às outras religiões.
Nalguns povos, especialmente no Egipto, surgiram ideias monoteístas que não vingaram.
Até que ponto Moisés conhecia estas ideias? Qual a natureza e extensão da revelação de Deus a Moisés? Os desígnios de Deus são inacessíveis à nossa inteligência. O facto é que Deus surgiu a Moisés, entregou-lhe as Tábuas da Lei e que esta revelação alterou a vida de um povo
O povo judeu teve de mudar instantâneamente da fé num politeismo com muitos deuses e ídolos que no fundo pareciam ser seres materiais com existência física e poderes sobrenaturais para um Deus único, sem imagem, abstracto, incompreensível embora estivesse sempre presente.
A história do povo judaico, como contada no Antigo Testamento, está replecta de recaídas na idolatria. De quando em quando apareciam os Profetas que pregavam o regresso ao Deus único.
O facto é que de recaída em recaída o povo nunca se separou do Deus único que os manteve unidos e na esperança e lhes deu força para a guerra de sobrevivência, constante da sua história.

SÓ UMA RELIGIÃO É VERDADEIRA?

Por eu ter uma fé profunda numa determinada religião devo considerar os outros infiéis ou herejes?
É um erro que tem sido ou é ainda praticado em todas as religiões e é totalmente lamentável e vai totalmente contra a liberdade do homem
Não podemos duvidar da sinceridade da fé do crente duma religião diferente da nossa. Se for sincero, coerente com as suas convicções e praticar os grandes princípios da sua religião só temos que o respeitar e admirar.

SE DEUS É SÓ UM POR QUE HÁ DIFERENTES RELIGIÕES?

Por que é que há fé em diferentes religiões?
Em que consiste a fé? Como nasce a fé? Trata-se de respostas impossíveis pois não conseguimos penetrar nos desígnios de Deus
Eu diria que Deus nos infundiu alguns princípios que foi activando progressivamente através do tempo de um modo lento e pedagógico,
Estes princípios não são claros, tendo o homem a opção de os desenvolver e possivelmente de os integrar com a cultura que o circunda
É como numa estrada com vários caminhos para o mesmo destino, cada um escolhesse um caminho diferente.

PODE-SE PENSAR SOBRE A REVELAÇÃO?

A fé a aderência a uma verdade revelada por Deus.
Esta revelação está centrada não só sobre a certeza de Deus mas também num conjunto de afirmações sobre a natureza de Deus e das suas relações com os homens, revelações que se designam por mistério
O mistério é totalmente inacessível à razão mas podemos raciocinar sobre um mistério tal qual como raciocinamos sobre um postulado, como é o caso da geometria euclidiana – é a filosofia misterial.
Esta filosofia misterial, por ser obra do homem, não leva a verdades absolutas e por isso as suas informações não podem ser dogmatizadas, ao contrário do que muitas vezes tem acontecido na Igreja
As relações da hierarquia com os fieis tem usado e abusado da autoridade dogmática e utilizado pouco a formação e o dialogo.

O PECADO ORIGINAL EXISTIU?

O pecado original passou-se tal qual como está descrito na Bíblia? Não me parece possível, tratando-se certamente de uma alegoria.
Tratar-se-ia de uma situação simbólica em que Deus teria dado a escolher ao homem viver na contemplação de Deus ou viver na liberdade.
A escolha da liberdade tornou-se assim um marco fundamental na vida do homem
Ao escolherem a liberdade, simbolicamente representada pela comida da maçã, Adão e Eva abriram o mundo ao bem e ao mal, que surgiu quase imediatamente com Caim e Abel.
Se Deus não respeitasse a nossa liberdade e acabasse radicalmente com o mal, transformar-nos-ia em autómatos a viver uma vida tranquila mas sem interesse e sem mérito
A Igreja a partir da altura em que se aliou ao poder foi perdendo o seu principal bem que Deus nos concedeu – a liberdade.
Foi impondo aos fiéis uma multidão de normas, perseguiu e matou os opositores e provocou cisões por falta de diálogo e de tolerância como foi o caso do arianismo, ortodoxia e protestantismo.