quarta-feira, 22 de outubro de 2008

DEUS FALA AOS HOMENS

Através dos tempos Deus tem mandado mensageiros para sugerir um caminho correcto. Fruto da liberdade que nos concedeu, teremos sempre a liberdade de aderir ou não à mensagem transmitida.

A história bíblica é rica nestes exemplos. Surgiram os patriarcas que ao mesmo tempo que revelaram a mensagem de Deus foram lideres militares que conseguiram libertar o seu povo, a que se seguiram os reis. À medida que os reis se foram desviando surgiram vozes críticas que tomaram corpo com as figuras notáveis dos Profetas

 

Cristo talvez possa em parte ser considerado como o ultimo Profeta. Deus mandou o seu próprio filho para salvar o homem.

A mensagem de Cristo foi uma continuação das mensagens dos profetas. Não seguiu apenas o Antigo Testamento, mas acrescentou-lhe ideias novas.

Não pregou apenas para o seu povo, nem aceitou como os Patriarcas ser líder de uma guerra de sobrevivência.

Ao contrário do judaísmo pregou uma religião universal, que foi difundindo para outros povos, religião fundada na fé, na esperança e na caridade.

Para muitos judeus Cristo não foi aceite pois esperavam um Messias guerreiro que os libertasse dos romanos. A religião apesar desta oposição, espalhou-se rapidamente não só na Judeia mas em vários países 

 

Será que depois de Cristo Deus deixou de mandar mensageiros e abandonou o homem à sua sorte?

Não me parece. Deus surgiu através das aparições e dos santos

Embora não conteste as aparições, elas têm mais um aspecto emocional, e algumas são contestadas.

Os santos, reconhecidos ou não, são um exemplo real que é possível viver uma vida com sentido. Muitos denunciaram e combateram erros e lutaram para o bem da humanidade -lembremo-nos entre outros de S. Francisco de Assis, madre Teresa de Calcutá, padre António Vieira 

  

A criação do mundo é intrigante e incompreensível. Nós só podemos compreender a acção de Deus atribuindo-lhe intenções e objectivos, como se fosse um ser humano

Para quê que Deus criou o mundo e por que é que o criou assim.

Mantendo-nos apenas na criação dos seres vivos, a ciência vai-nos fazer recuar para a origem da vida. Seja como for, é certo que os seres vivos têm todos a mesma origem e se diferenciaram pela evolução

Quer dizer, os seres não surgiram perfeitos, foram-se transformando através dos tempos para se adaptarem ao meio ambienta

Ao mesmo tempo maravilho-me com a beleza da criação e interrogo-me sobre o inexplicável. Ao optar comer a maçã adquirimos o conhecimento, mas ele não nos permite interpretar Deus.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Basta-me falar com Deus????

Basta-me falar com Deus ou preciso de aderir a um rito, de participar em comunidade na presença e adoração de Deus?

O homem é um ser que vive com os outros, que necessita de comunicar e para tal usa uma linguagem que acompanha com gestos e expressões. Para ele os sinais são importantes, podemos dizer que há uma linguagem dos sinais – sinais de afecto (ramo de flores, abraço, beijo, etc.) ou sinais de zanga

É por esta razão que o homem tem a necessidade de um exercício exterior da sua fé, para com outros em conjunto procurar estar com Deus, adora-lo, ouvi-lo

 

Para os cristãos a forma por excelência da participação colectiva é a missa.

A missa é um memorial de Cristo. Nela recordamos que Cristo foi um Deus feito homem que veio ao mundo para transmitir uma mensagem transcendente, que morreu e que ressuscitou

A missa não é assim a recordação de um enterro ou de uma morte, mas é a celebração da vinda à terra do filho de Deus

A missa deve assim ser praticada com alegria e ao mesmo tempo ser um meio de aumentar a nossa força para seguir os ensinamentos

 

A missa seja em que condições for celebrada tem o valor de memorial e permite a celebração colectiva.

Todavia a mensagem e vivência frutificam mais em condições óptimas.

A missa é um acto de alegria. Para isso as igrejas devem ter luz, os cânticos devem ter animação e toda a celebração deve ser viva

A missa deve levar até Deus. A cerimónia deve-nos encaminhar para a Eucaristia, razão de ser primária da missa e todos os textos utilizados deveriam ser simples, claros e compreensíveis

A homilia deveria ocupar um lugar fundamental na formação e meditação mas para isso deveria ser compreensível e curta

 

A igreja é o local do culto e foi construída para tal objectivo. As igrejas antigas com a sua grande altura e a sua arquitectura facilitavam a oração.

Tinham porem dois grandes inconvenientes

Um é a falta de luz. As igrejas não tinham janelas ou quando havia aberturas estas estavam preenchidas com vitrais. Estava subjacente a ideia que para participar na missa ou para orar, os fiéis não deveriam ter qualquer contacto com o exterior. Parece-me que a falta de luz impede a alegria própria da nossa situação de crentes.

Uma outra questão é a sumptuosidade. Muitas igrejas, embora autênticas obras de arte, esmagam pela sua grandiosidade e chocam pela sua riqueza

 

 A missa está centrada na Eucaristia como sequência de um pedido de Cristo – sempre que o fizerdes, fazei-o em meu nome.

Terá a missa o ritmo e a forma adequados aos tempos modernos? Eu penso que não. A última reforma profunda da missa deveu-se julgo eu, a S. Tomás de Aquino. Trata-se de um trabalho notável que ainda hoje é totalmente válido. Todavia, muitos textos são muito formais e de compreensão difícil, Em muitas igrejas os cânticos não têm ritmo. Por vezes as homilias são demasiado longas.

Notemos porem que alguns padres conseguiram com inteligência superar estes problemas criando missas bem participadas

 

Ao falar do culto cristão vem logo à cabeça a figura do padre. O padre é um homem, tão humano como nós, que se sentiu chamado por Deus para servir os crentes e todos os homens em geral. Nem sempre é assim, mas o facto de por vezes um padre não ter sentido o chamamento ou tê-lo perdido, não invalida a sua missão

 

Os padres devem casar? Eis uma questão para que não tenho resposta. O padre fez um voto de castidade para se dedicar totalmente a Deus e a igreja. Viveria assim livre doutras preocupações ou desejos materiais e sem a pressão de una mulher que poderia não compreender a sua missão. Todavia nem sempre é assim. Por vezes o padre no decorrer na vida vê que voto não lhe foi bem explicado ou que as circunstancias mudaram, casa-se e abandona o sacerdócio. Outras vezes, o que é pior, junta-se com alguém ou pratica aberrações como a pedofilia

Podemos pensar que as razões que apontamos para o celibato dos padres não são absolutas e poderão não estar certas. O facto é que vemos padres protestantes caçados que são exemplares e padres católicos celibatários que são uma vergonha.

Julgo que se deveria fazer um debate amplo sobre este tema

 

Faz sentido as mulheres não poderem exercer o sacerdócio? A recusa actual parece-me uma herança da tradição judaica em que a mulher é colocada num papel secundário, ideia que ainda hoje se mantém nas práticas religiosas judaica e islâmica.

As religiosas são muito mais respeitadas pelo povo que os padres. Muitas religiosas têm feito trabalho meritório, generoso e dedicado. Algumas mostraram ter uma grande cultura religiosa.

Parece-me que é uma situação a ser revista

 

A oração é uma peça fundamental do culto. Trata-se de nos dirigirmos a alguém que não tem dimensão, não ocupa espaço – está em toda a parte -, não vive no tempo – vive na eternidade. É um diálogo entre um ser visível todo insignificante e um não ser invisível, todo-poderoso.

Pode-se fugir em parte a esta dificuldade recorrendo à intercessão de Nossa Senhora ou dos Santos.

Eu por mim prefiro tentar embora com dificuldade dirigir-me directamente a Deus – ajuda-me a entender melhor o Grande Mistério.

 

 

A oração tem um lado contemplativo e dialogante vem que contemplamos e agradecemos a presença de Deus e em que lhe pomos os nossos problemas e pedimos que nos ajude. Sei que Deus me mandará pistas difusas que terei de encontrar e desenvolver.

Pode haver ainda um lado directamente peticional em que peço directamente a Deus que me resolva um caso concreto. Eu sei que o que me pedirdes será conseguido e que a fé remove montanhas, mas falta-me esta fé plena

 

O céu e o inferno existem? Haverá um Deus vingador e castigador que castiga para sempre os pecadores

Penso que as descrições bíblicas do inferno são uma alegoria que transmitem uma mensagem.

O destino final da nossa alma é depois da morte do corpo ir para o céu e contemplar Deus. Para o fazer tem que estar livre do que acumulou de mal na sua estadia terrena e por isso será sujeita a um período de purificação em que não contemplará Deus. Este período de não contemplação de Deus será de grande sofrimento e representa o Inferno.

Custa-me considerar um inferno físico com fogo eterno até porque sendo a alma imaterial, ela não é queimada.

Custa-me também aceitar um Deus castigador que condene para uma eternidade

 

Qual o valor da confissão? Quando fazemos uma coisa mal feita sentimo-nos mal e quanto atingimos outros por vezes andamos com a carga da culpa. Por vezes sentimos necessidade de pedir desculpa.

Compreende-se assim que às vezes sentimos necessidade de pedir desculpa a Deus e sentir que somos desculpados mostrando intenção e arranjando estimulo para uma caminhada melhor

Mas basta pedir directamente a Deus ou devo confessar-me? A mim parece-me que a resposta tem a ver com o equilíbrio psicológico. Se após uma conversa com Deus sinto que fiquei com a alma livre, tudo bem. Por vezes poderei sentir a necessidade de contar as minhas faltas a alguém que me ouça, me aconselha e transmita o perdão em nome de Deus.

Para mim, a confissão é um acto muito útil e indispensável, mas deveria ser voluntária e praticada com o ritmo que cada um achasse conveniente

 

Cristo não organizou uma igreja, não estabeleceu um rito. Pregou uma doutrina perfeitamente integrada no Antigo Testamento e deixou algumas pistas como a Eucaristia, o Pai Nosso e moral e o significado da mensagem

 

Cristo ao dizer a S.Pedro tu és Pedro e serás a minha pedra, criou os fundamentos do papado e da organização da igreja, mas não definiu o seu nível de autoridade. A autoridade de Pedro provinha apenas da sua autoridade moral.

Com o tempo e a aliança ao poder, o papado exorbitou no poder e os papas passaram a ter poder temporal, coisa que Cristo sempre recusou

 

Com o evoluir dos tempos o poder temporal da igreja diminuiu. Hoje está reduzida ao anacronismo do Vaticano e a uma ostentação dispensável.

Os papas actuais são figuras impolutas, cultos e sabedores, que apresentam ideias bem estruturadas. Não invocam a infalibilidade nem excomungam

Devo seguir rigorosamente aquilo que o papa diz? As afirmações do papa devem merecer sempre respeito e consideração e não ser recusadas a priori.

Todavia se depois de muito reflectir não concordar com alguma coisa que não colida com o núcleo fundamental da fé, não sou obrigado a segui-la

 

Nos primeiros tempos do cristianismo as celebrações eram muito simples. Os cristãos não eram muitos e por serem clandestinos não podiam fazer celebrações públicas. Muitas vezes eram repastos colectivos em que o pão e o vinho eram abençoados para se tornarem corpo e sangue de Cristo e se celebrar a Eucaristia.

 

Com o aumento do número de fiéis teve que se organizar o rito. É natural que desde o inicio estivesse centrado na Eucaristia a que se acrescentaram, na continuação da tradição judaica, leituras, salmos, orações e cânticos, tópicos que ainda hoje constituem o núcleo da missa.

Todavia hoje perdeu-se muito a vivência da Eucaristia. Há textos acrescentados que embora de alto valor literário são complexos e de difícil compreensão. As homilias na maior parte das vezes são extensas. Em muitos casos a missa tornou-se uma cerimónia longa e enfadonha

 

Nos textos da missa foi incluído o credo elaborado no concilio de Niceia. O credo foi elaborado no concilio como uma profissão de fé contra o arianismo.

Duvido que um texto tão elaborado tenha tido algum efeito sobre os fiéis mas o que me espanta é que contenha algumas imprecisões que nunca foram esclarecidas ou corrigidas.

Ao dizer-se que está sentado à direita de Deus Pai, devemos imagina-los sentados em duas cadeiras? Mas ao imaginarmos assim estamos a ter uma visão antropomórfica de Deus

 

O texto do credo também fala na ressurreição dos mortos. Surge aqui uma interrogação grave. Será que se refere à ressurreição da carne. Será que no Dia do Juízo Final os corpos adquirem vida, abandonam os túmulos e vão para o céu. Para mim é impossível idealizar assim, nem encontro nada escrito no Antigo ou Novo Testamento que leve para este caminho.

domingo, 14 de setembro de 2008

O HOMEM E DEUS

A ideia de Deus

É interessante pensar que a ideia de Deus apareceu no homem desde os primórdios da humanidade. O primitivo imaginou um Deus muito próximo dele, quase um homem com muito poder que mandava nas tempestades, nas sementeiras, na fertilidade, etc. Esta ideia foi-se modificando até se chegarem às grandes mitologias em que o mundo era governado por um conjunto de deuses todos com grandes poderes mas com defeitos humanos.

A religião judaica rompeu totalmente com esta concepção, surgindo com um monoteísmo absoluto – crença num Deus único, imaterial, sem imagem física, prégando uma doutrina transcendental, transmitindo ao homem ideais que o encaminhavam para uma vida melhor

Parece assim que teria havido uma preparação do homem para que através de progressos sucessivos pudesse adoptar soluções mais perfeitas. Em toda esta evolução foram dadas pistas que o homem com a liberdade que lhe foi concedida poderia seguir ou não

 As várias religiões 

Seria de esperar que as semelhanças existentes nas várias religiões deveria levar a que todos os crentes se sentissem irmãos na fé e se juntassem para combater a miséria e trabalhassem para conseguir a paz no mundo.

Infelizmente muitos tiveram a arrogância de se considerarem os únicos detentores da verdade e trataram os outros crentes como hereges, infiéis, ímpios e procuraram impor pela força a sua religião surgindo as “ guerras santas” como as cruzadas e o actual fundamentalismo islâmico.

É pena esta mancha terrível na história das religiões. Enquanto Deus não impôs nada ao homem – deu pistas, ideias difusas, para optar, o homem quis ser mais que Deus e impôs uma opção triste e lamentável não identificável com os ideais que professa.

O mundo não terá remédio enquanto os crentes gastarem a sua energia a se degladiarem e a se matarem, em vez de se dirigirem a um mundo que precisa deles.

 A fé 

O que é a fé? A fé é o acto pelo qual acreditamos firmemente num facto ou afirmação que não podemos provar. Actos de fé não são excepcionais – fazemo-lo ao acreditar nas notícias, ao acreditar em factos históricos, ao acreditar nas pessoas. Na ciência existem postulados que são verdades não demonstradas em que se pede para acreditar como é o caso da geometria de Euclides

Todavia, a palavra fé está habitualmente reservada para a fé religiosa, ou seja para a fé num Deus revelado – conjunto de verdades indemonstráveis que mostram algo da natureza de Deus e que esboçam as relações entre o homem e Deus

O nascimento do cristianismo

A religião cristã foi-se formando e cimentando através de intervenções graduais.

O aparecimento de Deus a Moisés deixou uma marca única e indelével que implicou uma ruptura ideológica total. Foi revelado um Deus único e imaterial em oposição ao politeísmo e adoração dos ídolos, associado à apresentação de um código moral excepcional, os Dez Mandamentos.

Mudar uma fé para uma outra radicalmente diferente não foi fácil.

O Antigo Testamento diz que houve recaídas e por isso de quando em quando apareciam os Profetas, Os profetas não eram os que previam o futuro, mas sim mensageiros da palavra de Deus.

Finalmente Deus achou por bem mandar o Profeta por excelência, o seu Filho, Cristo. Cristo revelou um pouco mais da realidade de Deus ao revelar a Santíssima Trindade e prégou numa altura difícil da vida do povo, dando aos que o seguiram força moral e esperança.

Penso que Cristo foi o último Profeta. A partir de aí houve aparições de Nossa Senhora (Fátima, Lourdes, etc.) mas o seu conteúdo foi diferente do das mensagens dos profetas.

É importante notar que neste trajecto todo, Deus respeitou sempre a nossa liberdade – o homem pode sempre optar em aderir ou não ao que lhe era revelado

As verdades da fé

O enunciado das verdades a acreditar é longo?

Na minha fé, a fé cristã, é curto

Ao Deus único e imaterial do Antigo Testamento o Novo explicita-o como Santíssima Trindade e esta manifesta-se aos homens pelo envio à terra de Cristo, filho de Deus, membro da Santíssima Trindade

Esta é a grande verdade a acreditar

Para lá disso no Novo Testamento encontra-se uma mensagem, indissociável da presença de Cristo que apela para um ideal de vida para abraçar.

Há também um apelo a reuniões colectivas, inicio de um rito – sempre que o fizerdes e a criação do papado e da Igreja – tu és Pedro e sobre esta pedra edificarás a minha Igreja

Cristo não escreveu um manual de religião, nem ditou o Novo Testamento, deu pistas para serem desenvolvidas.

O desenvolvimento das pistas valem pela qualidade de quem o fez e por terem sido aceites desde o início das comunidades de pé, mas afirmações dogmáticas que surgiram depois podem ser consideradas artigos de fé

Conversando com Deus 

Eu poderei falar com Deus? Um modo de falar e estar com Deus é a oração. Mas o que é a oração? É uma tentativa de falar com Deus, um Ser que não vejo, que não conheço mas que sei que existe. Há técnicas e formas de oração, mas eu esforço-me por fazer um contacto directo procurando reflectir com Deus os grandes problemas da minha vida. Não peço nada pois Deus tem a visão do que eu preciso e tenho a certeza que mais cedo ou mais tarde Deus me enviará uma resposta, directa ou indirecta

Os santos 

E chegar a Deus por intercessão dos santos? Os santos são seres humanos como nós que se destacaram na sua vida humana por um comportamento humano exemplar sempre coerente com a sua fé, mesmo que as atitudes implicassem grandes sacrifício, perseguição ou mesmo a morte. São para nós um exemplo a seguir, uma meta a atingir e o seu exemplo poder-nos-á dar força e esperança.

Será que fará sentido dirigir-me a um santo para que ele se dirija a

 um santo para ele se dirigir a Deus em meu intermédio? Esta concepção parece-me muito antropomórfica. O Santo é um puro espírito que vive na contemplação de Deus. Não é, como poderia ser em termos humanos, um amigo do chefe ao qual se poderá dirigir falando de mim. E porquê haver santos “especializados” para um determinado pedido? E porquê ser apenas o santo daquela Igreja que tem uma acção eficaz?

O rito 

Basta-me falar com Deus ou preciso de aderir a um rito, de participar em comunidade na presença e adoração de Deus?

O homem é um ser que vive com os outros, que necessita de comunicar e para tal usa uma linguagem que acompanha com gestos e expressões. Para ele os sinais são importantes, podemos dizer que há uma linguagem dos sinais – sinais de afecto (ramo de flores, abraço, beijo, etc.) ou sinais de zanga

É por esta razão que o homem tem a necessidade de um exercício exterior da sua fé, para com outros em conjunto procurar estar com Deus, adorá-lo, ouvi-lo

sábado, 30 de agosto de 2008

Fundamentalismo religioso

O fundamentalismo religioso é certamente o exemplo mais evidente e mais lamentável de uma má interpretação e uma má utilização da fé. O raciocínio levando ao fundamentalismo é muito simples – a fé dá-me a certeza de possuir a verdade divina; por conseguinte se eu tenho a verdade absoluta, os que não têm a minha religião são hereges.

Já os romanos tratavam por bárbaros os que não tinham a mesma religião e a mesma cultura e chegaram a massacra-los, mas foi com o advento do cristianismo que o fundamentalismo se generalizou. Começou com perseguições generalizadas aos cristãos mas quando o cristianismo se tornou poder, a situação inverteu-se.

Em 313, CONSTANTINO proclamou pelo édito de Milão a liberdade de culto. Com TEODÓSIO, em 380, o cristianismo tornou-se religião de Estado. Chegou rapidamente a tentação da Igreja utilizar o braço secular para combater as heresias e de os imperadores utilizarem a Igreja para aumentar o seu poder através de uma religião unitária.

A jurisprudência pagã não distinguia a autoridade civil da autoridade religiosa. CONSTANTINO promulgou um primeiro decreto contra as heresias a que se seguiram outros promulgados pelos imperadores que lhe sucederam, decretos reunidos mais tarde num Codex. Inicialmente estes decretos permitiam várias sanções mas raramente a morte. Era missão dos bispos pronunciarem-se sobre a heterodoxia e dos juízes promulgar a sentença. Pouco a pouco os bispos foram assumindo poder temporal como foi o caso de ARIBERTO, bispo de Milão, que ocupou o castelo de Monfort e prendeu e supliciou os hereges.

É particularmente interessante considerar o que se passou na Península Ibérica. No reino dos Godos observou-se sempre uma aliança completa entre a Igreja e o poder temporal. Antes de chegarem ao Ocidente, os godos tinham-se convertido ao cristianismo. No fim do Século IV converteram-se ao arianismo tendo começado imediatamente a discriminação contra os cristãos até ao ponto do rei Leovigildo ter procurado impor o arianismo ao seu povo. Quando o seu filho Hermenegildo, cristão, se revoltou contra ele, este dispôs-se a perdoá-lo se ele abjurasse a sua fé, tendo sido morto por se ter recusado.

Após a conversão de Recaredo ao cristianismo a maior parte da população abraçou esta religião e as perseguições viraram-se contra os judeus. Os concílios de Toledo confirmaram esta política.

Após a conquista da península pelos árabes surgiu uma época de tolerância religiosa que só não foi seguida pelas duas últimas dinastias, os almoravidas e os almoadas. Esta tolerância continuou a ser praticada pelos cristãos após a Reconquista ao contrário da política seguida por outros povos cristãos, como os francos.

Esta tolerância manteve-se até ao século XIII altura em que, devido à heresia cátara, nomeadamente a albigense, a Igreja chamou para si o direito de punir pela morte os hereges, nomeando inquisidores que actuavam com aval da sociedade civil.

A Inquisição foi criada em 1220 e a tortura autorizada em 1225. A justificação teológica foi dada por S. Tomás de Aquino.

É mais grave corromper a fé, que assegura a vida da alma, do que falsificar moeda que permite sobreviver à vida temporal. Por consequência, se os falsificadores são imediatamente condenados à morte pelos príncipes seculares, por maioria de razão os hereges que estão convencidos da sua heresia poderão não só serem excomungados mas também com toda a justiça condenados à morte.

Em 1478 o papa SISTO IV a pedido dos Reis Católicos aprovou a instalação da Inquisição em Espanha que mais tarde se estendeu a Portugal. O papa Paulo III confirmou a constituição da Companhia de Jesus.

LUTERO indignado com a venda de indulgências e a corrupção da Igreja escreveu um texto altamente crítico. Como resposta o papa LEÃO X ordenou que fossem queimados todos os escritos de LUTERO. Foi criado assim o maior cisma da igreja cristã e mais uma vez a intolerância esteve na sua génese.

Todavia e Reforma surgiu como um novo foco de intolerância. CALVINO com a ideia da predestinação absoluta governou Geneve com autoridade e tomou atitudes extremas com a morte pelo fogo de Michel Servet. Esta intolerância espalhou-se pelos países de maioria protestante.

Porquê o fundamentalismo?

O fundamentalismo tem estado associado aos regimes políticos absolutos. Tratou-se de uma aliança contra natura apenas compreensível pela filosofia política da época. Tenhamos presente que a palavra tolerância entrou no nosso vocabulário apenas no Renascimento, devido a LOCKE.

MOISÉS, CRISTO E MAOMÉ representam as três religiões monoteístas mais seguidas representando muitos milhões de crentes, religiões que se poderiam ter inspirado parcialmente do monoteísmo solar do século IV AC.

Todas estas crenças serão falsas? Haverá só uma verdadeira? Julgo que temos que aceitar a fé de quem acredita, seja que religião for. Provavelmente a limitação da nossa inteligência e as diferentes culturas e tradições impedem o homem de ver Deus em toda a sua grandeza, conseguindo ter apenas visões parcelares não totalmente semelhantes mas todas capazes de levar a uma fé absoluta.

Por esta razão todos os crentes deveriam amar-se, respeitar-se como irmãos e procurarem compreender-se.

É totalmente incompreensível como o fundamentalismo continua neste século – fundamentalismo árabe, ETA, IRA, limpeza étnica, continuando a observarem-se ideias erradas e deturpadas de fé associadas a abusos de autoridade em domínios religiosos, filosóficos, políticos e mesmo científicos. É importante reflectir como isto é possível num mundo que se intitula democrático e solidário, respeitando as ideias e a dignidade dos outros.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

FÉ E CIÊNCIA

Ignorância e fé

Por vezes tem-se confundido tradição com verdade religiosa. Simples opiniões difundidas numa determinada época foram consideradas verdades de fé.
Alguns conceitos da ciência da época ligaram-se a uma filosofia misterial erradamente promovida a dogma e artigo de fé
Esta estranha associação entre ignorância e um conceito errado de fé foram em determinadas épocas um grande entrave para o avanço da ciência e a evolução do pensamento. Vejamos alguns exemplos.

Dissecção de cadáveres

A dissecção de cadáveres já se praticava em Alexandria no tempo dos Ptolomeus. ERASISTRATO (310-250 AC) e HERÓ de FILO (335-285 AC) deviam os seus conhecimentos anatómicos às autópsias que efectuaram.
Todavia estas práticas deixaram de se efectuar, e a anatomia galénica já era baseada exclusivamente na dissecção de animais. No início da Idade Média as dissecções humanas estavam proibidas devido à crença na ressurreição da carne e ao medo inspirado pelos cadáveres.
Foram necessárias muitas lutas e muita perseverança para se chegar até VESÁLIO.

Copérnico e Galileu

Durante catorze séculos foi aceite como indiscutível o modelo proposto por Ptolomeu para explicar o movimento dos astros, chamado geocêntrico por considerar que a terra estaria imóvel e todos os astros se moveriam sobre a terra segundo um sistema combinado de circunferências excêntricas e de epiciclos.
No século XVI COPÉRNICO no livro Revolução das órbitas celestes, dedicado ao Papa Paulo III, propôs um sistema heliocêntrico em que o sol estaria imóvel e a terra se moveria à volta do sol, a lua à volta da terra e os outros planetas à volta do sol. Este sistema pondo em causa conhecimentos aceites como definitivos e “ desvalorizando” o papel central da terra no Universo, suscitou muitas criticas, nomeadamente de TYCHO-BRAHE, o maior astrónomo da época e de LUTERO que o apelidou de louco. Todavia a sua ideia foi bem aceite por altas personalidades da Igreja como o Cardeal SCHONBERG que se propôs mandar copiar o livro à sua custa e o Bispo TIEDMAN GIESE que lhe encontrou um editor.

GALILEU abraçou com entusiasmo essas ideias. Numa polémica com SOZZO e IDELLE COLOMBE que acusaram o sistema de COPÉRNICO de contrariar as Escrituras, GALILEU para os combater fez uma exegese pessoal da Bíblia. O Santo Ofício, pressionado pelo grande número de heresias existente sobre a Bíblia, condenou GALILEU e proibiu a leitura do livro de COPÉRNICO, interdição que levantou quatro anos depois.

Do lado protestante apareceram reacções iguais. A Universidade de Teologia Protestante de Uppsala após um julgamento solene condenou NILS CELSUS por ter defendido as ideias de Copérnico e proibiu-o de ensinar durante quarenta anos.

Evolucionismo

Quando DARWIN defendeu o evolucionismo, as suas ideias foram mal aceites, particularmente por protestantes que as consideraram contrárias às Escrituras.
Nos Estados Unidos, particularmente nos Estados do Sul, mantém-se uma polémica entre os criacionistas (os que seguem literalmente a versão bíblica da criação) e os evolucionistas. Tornou-se célebre devido à sua divulgação nos mass-média a condenação em 1925 de John Scopes pelo tribunal de Dayton (Tennessee) por ensinar o evolucionismo. Em 1981 o juiz Overton em Little Rock (Arkansas) após ter ouvido um grande número de especialistas decidiu que o criacionismo não poderia ser considerado como uma hipótese científica válida e assim não poderia ser ensinado como verdade científica, por ser contra o princípio da liberdade religiosa. Pela mesma razão condenou o balanced treatmet (tratamento equilibrado) ou seja o ensino simultâneo do criacionismo e do evolucionismo. Todavia o Kansas School Board of Education retirou o ensino obrigatório do evolucionismo das escolas públicas e George Bush Jr., retomou a ideia do balanced treatment com o nome de morality based education.

Estes exemplos demonstram como a ignorância associada ao poder temporal da Igreja ou do Estado pode dificultar o avanço das ideias e da ciência. Também se pode passar o mesmo nos meios científicos. Algumas vezes atitudes intransigentes de cientistas altamente conceituados impediram o avanço de novas ideias.

E hoje?

Actualmente estes conflitos ainda existem ou foram totalmente superados?
O mundo mudou muito. Por um lado as igrejas perderam autoridade e por outro lado a comunicação social permite uma informação rápida e uma discussão aberta
A não ser nos países teocráticos as igrejas estão separadas do estado e por isso perderam meios para obrigar a cumprir o que nunca deveriam ter imposto.
Ainda estão em juízos morais transformados em regras sobre alguns pontos, mas nestes domínios penso que em vez de obrigar os crentes se deveria passar para o diálogo, informação e formação de consciências, dando sempre ao crente a possibilidade de escolher

domingo, 17 de agosto de 2008

DIALOGANDO COM DEUS

A revelação

Na linguagem comum a palavra revelação define algo que surge bruscamente como novo e inesperado – a imprensa “revelou” um escândalo sobre alguém importante, “ revelou-se” um jogador de futebol, etc.
Num sentido estrito, quando se fala em revelação, fala-se em revelação divina.
Revelação provém do latim «revelare» que significa correr o véu que encobre um objecto. Ao abrir este véu com a revelação, Deus dá-nos alguma ideia sobre si próprio, adaptada para a nossa inteligência e nosso conhecimento

O homem fala com Deus

Eu posso falar a Deus? Com que linguagem? Ele ouvir-me-á?
Deus não tem imagem, não tem corpo, não sei o que é, é qualquer coisa que me transcende, que me ultrapassa e que reduz à insignificância a minha capacidade de pensador
Todavia sinto uma necessidade absoluta de dialogar com este Ser único que não conheço, não compreendo, mas faz parte integrante da minha vida
Neste diálogo, que alguns considerarão um monólogo, pedirei ajuda para compreender melhor o que estou a fazer nesta vida e o que se passa na outra vida, como me relacionar com Deus, como viver correctamente esta vida, qual a minha missão
As interrogações terão resposta? As respostas não serão claras pois certamente não as receberei por e-mail ou por carta, mas certamente me virão forças para pensar melhor e para agir melhor

O homem pode falar com os santos?

Desde os primeiros tempos os cristãos veneraram os mártires e os santos.
Enquanto havia perseguições os mártires foram o exemplo de uma fé tão forte e tão coerente que lhes custou a própria vida
Após Constantino acabaram as perseguições e portanto os mártires e surgiram os santos, cristãos que levaram uma vida totalmente coerente com a sua fé.
Certamente os santos e mártires começaram por ser venerados pelo seu exemplo de vida. Acharam mais fácil rezar aos santos atendendo a que associavam uma imagem mais concreta e mais próxima do homem que a de Deus, mas pensaram e acreditaram que poderiam interceder por Deus e fazer milagres e que por vezes este poder estava confinado a um santo de uma determinada Igreja.
O que pensar disto?
A mim parece-me evidente que quando falamos com os santos, Deus ouve e se assim entender age e nessas circunstâncias os santos não têm uma intervenção directa – seriam apenas facilitadores do diálogo.
A facilitação do diálogo e o exemplo de uma vida são suficientes para dar aos santos um papel privilegiado. Não é preciso mais.

A propósito da morte

O homem nasce, vive e morre mas enquanto ele não optou em nascer e pode fazer imensas opções na sua vida, a morte aparece como uma realidade não optada, acrescentada.
Falar da morte é sempre pensar na vida e no seu sentido. Pensar se a morte é a ida para o nada ou o caminhar para uma nova vida.
Aqui contam as opções espirituais de cada um. Se se opta por uma ida para o nada é lógico perguntar qual o sentido da vida que levamos acaba-se um capítulo da nossa vida sem se abrir outro.
Se acreditarmos numa outra vida temos que nos interrogar qual o significado desta vida e como a viver

Há uma outra vida?

Se a razão nos poderá fazer inclinar (ou não) para uma resposta afirmativa só a fé nos poderá dar uma certeza absoluta.
Mas sob que forma decorre a outra vida?
Desde o início do cristianismo se conceberam três classes na vida eterna – inferno, paraíso, purgatório tendo-se acrescentado posteriormente o limbo.
Esta concepção admite um Deus castigador e vingador que não se ajusta ao Deus que deu ao homem a opção da liberdade
E qual a forma física do homem na outra vida? Ao se falar dos fogos do inferno admite-se uma ressurreição total pois os corpos sofreriam com os efeitos do fogo. Penso que as descrições bíblicas do inferno, são uma das muitas alegorias de que a Bíblia é rica. Se atentarmos à descrição do estado físico de Cristo após a sua ressurreição vemos que ele não era igual, era de um certo modo imaterial pois atravessava portas fechadas.
Parece-me plausível admitir que na outra vida se trata da presença da alma sob uma forma que desconhecemos, cujo objectivo seria contemplar Deus. Se a alma não estivesse pura teria um tempo de purificação antes de poder contemplar Deus.

Satanás

Durante todos os tempos Satanás, o diabo e os demónios estão presentes na ideologia cristã.
Para mim é inaceitável que um Deus todo poderoso tenha criado um anti-Deus
O homem tem que lutar contra tentações e vencê-las é uma das vitórias da nossa opção pela liberdade.
A ideia do diabo corresponde à educação pelo medo. Assim como há quem diga a uma criança – vê como te portas, vem aí o papão, dizia-se aos cristãos – tem cuidado porque o Diabo está atento.
Esta ideia para lá de errada é anti-pedagógica pois não educa o cristão na necessidade de fazer opções livres e correctas

O baptismo

Nos três primeiros séculos do cristianismo, o baptismo era feito apenas em adultos, seguindo o exemplo de Cristo. Era um rito de iniciação pois era precedido de uma formação cuidadosa.
A partir do século VI passou-se a fazer só em crianças
O baptismo em crianças nasceu da ideia que o homem nasce marcado indelèvelmente com o pecado original.
É totalmente inaceitável que Deus possa castigar quem como uma criança não tem capacidade para optar.
Alem disso a criança não se compromete em nada o baptizado.
Parecia-me lógico regressar ao baptismo de adulto após uma preparação profunda e cuidadosa. Só assim teríamos cristãos preparados e conscientes capazes de intervir no mundo. Poderiam argumentar que o número de cristãos diminuiria grandemente. Em termos estatísticos seria verdade, mas o que ganhamos em ter muitos cristãos pouco praticantes em vez de poucos que poderiam marcar uma presença no mundo?

domingo, 10 de agosto de 2008

O INICIO......

PORQUÊ ESTE BLOGUE?

Muitos dos que me conhecem perguntarão: “Por que é que um professor de Bioquímica escreve um blogue destes, totalmente fora da sua especialidade”? Esta pergunta precisa de uma resposta.
O meu interesse por estes temas tem duas razões
A primeira razão tem a ver com o meu gosto pela filosofia. Quando no 7º ano de Ciências, na altura o ano que antecedia a entrada na Universidade, tive o primeiro contacto com a Filosofia, esta disciplina despertou em mim uma paixão que nunca desapareceu. Não tive coragem para mudar para o 7º de Letras, perdendo um ano, mas mantive sempre o gosto pela Filosofia frequentando tertúlias e lendo e escrevendo.
Uma outra razão tem a ver com um facto da minha vida familiar. O meu pai era judeu e a minha mãe católica, ambos não praticantes. Quando nasci o meu pai fazia questão na circuncisão e a minha mãe no baptismo. Cedo concluíram que estavam a ter uma discussão inútil e resolveram não me dizer nada para eu quando adulto escolher livremente.
Quando pelos 18 anos tive consciência que não estava ligado a nenhum valor, senti um grande vazio. Fui lendo e pensando, tendo rapidamente chegado à conclusão que Deus existe. Rapidamente surgiram na minha cabeça perguntas angustiantes. O que é Deus? O que Deus quer de mim? Qual o meu destino? Como falar com Deus? Estas perguntas mantiveram-se sem respostas até que de um momento para outro senti-me inclinado para o catolicismo e resolvi baptizar-me.
É fácil de concluir que a minha formação religiosa pois não tive catequese e tudo o que aprendi foi feito como adulto (estava no 3º ano da Faculdade) fruto de uma opção, razões que me levaram a pensar, o que ainda hoje continua.
Este blogue resulta do desejo de partilhar estes pensamentos e refllexões.Todos os raciocínios que provêm do raciocínio humano são discutíveis e por isso haverá certamente quem não concorde. Seria muito interessante que este blogue se transformasse num fórum de discussão, quer directamente através deste blogue ou pelo e-mail mjhalpern1@netcabo.pt

A RAZÃO PODE CHEGAR A DEUS?

Deus, quem és?
Para mim concluir que existes é fácil , basta pensar que todas as causas são simultaneamente causa e efeito, isto é, que todas as causas são causadas
Muitas vezes quer na investigação quer ao escrever sobre o funcionamento do corpo humano fico maravilhado com a perfeição da máquina e interrogo-me sobre o seu criador.
Com o avanço da ciência tem-se recuado no objecto da criação. O Antigo Testamento diz que Deus criou todos os seres vivos um a um. Hoje com o advento do evolucionismo, não se aceita o criacionismo e vai-se recuando na origem dos seres vivos, mas chega-se sempre a um ponto de partida já existente na natureza e que portanto precisa de um criador
É evidente que não pode ser um ser semelhante a um homem todo poderoso, como os deuses que aparecem na mitologia. É um mistério que a inteligência não atinge. Tratar-se de um ser imaterial, criador e não criado sobre o qual não sou capaz de conceber qualquer projecção que o possa visualizar.
Esta dificuldade, reduz o Deus que eu consigo conceber como uma hipótese provável, mas não me diz nada sobre Ele, não me apresenta a Ele

O QUE È A FÉ?


A fé é uma aderência absoluta a uma verdade religiosa que não tem explicação racional. Como é que se chega a ela?
Raramente acontece por uma revelação directa de Deus, como aconteceu com S.Paulo. Em geral a intervenção de Deus é difusa e discreta, competindo a nós as opções.
No meu caso, o que sei é que de um momento para o outro passei a acreditar. Não tive a ideia de uma intervenção nítida de Deus. Alguma coisa aconteceu, haverá uma razão, mas o que me aconteceu não sei

O JUDAISMO

As grandes religiões( judaísmo, cristianismo, islamismo) têm um ponto comum a fé num Deus único. Esta ideia nasceu no judaísmo e foi transmitida às outras religiões.
Nalguns povos, especialmente no Egipto, surgiram ideias monoteístas que não vingaram.
Até que ponto Moisés conhecia estas ideias? Qual a natureza e extensão da revelação de Deus a Moisés? Os desígnios de Deus são inacessíveis à nossa inteligência. O facto é que Deus surgiu a Moisés, entregou-lhe as Tábuas da Lei e que esta revelação alterou a vida de um povo
O povo judeu teve de mudar instantâneamente da fé num politeismo com muitos deuses e ídolos que no fundo pareciam ser seres materiais com existência física e poderes sobrenaturais para um Deus único, sem imagem, abstracto, incompreensível embora estivesse sempre presente.
A história do povo judaico, como contada no Antigo Testamento, está replecta de recaídas na idolatria. De quando em quando apareciam os Profetas que pregavam o regresso ao Deus único.
O facto é que de recaída em recaída o povo nunca se separou do Deus único que os manteve unidos e na esperança e lhes deu força para a guerra de sobrevivência, constante da sua história.

SÓ UMA RELIGIÃO É VERDADEIRA?

Por eu ter uma fé profunda numa determinada religião devo considerar os outros infiéis ou herejes?
É um erro que tem sido ou é ainda praticado em todas as religiões e é totalmente lamentável e vai totalmente contra a liberdade do homem
Não podemos duvidar da sinceridade da fé do crente duma religião diferente da nossa. Se for sincero, coerente com as suas convicções e praticar os grandes princípios da sua religião só temos que o respeitar e admirar.

SE DEUS É SÓ UM POR QUE HÁ DIFERENTES RELIGIÕES?

Por que é que há fé em diferentes religiões?
Em que consiste a fé? Como nasce a fé? Trata-se de respostas impossíveis pois não conseguimos penetrar nos desígnios de Deus
Eu diria que Deus nos infundiu alguns princípios que foi activando progressivamente através do tempo de um modo lento e pedagógico,
Estes princípios não são claros, tendo o homem a opção de os desenvolver e possivelmente de os integrar com a cultura que o circunda
É como numa estrada com vários caminhos para o mesmo destino, cada um escolhesse um caminho diferente.

PODE-SE PENSAR SOBRE A REVELAÇÃO?

A fé a aderência a uma verdade revelada por Deus.
Esta revelação está centrada não só sobre a certeza de Deus mas também num conjunto de afirmações sobre a natureza de Deus e das suas relações com os homens, revelações que se designam por mistério
O mistério é totalmente inacessível à razão mas podemos raciocinar sobre um mistério tal qual como raciocinamos sobre um postulado, como é o caso da geometria euclidiana – é a filosofia misterial.
Esta filosofia misterial, por ser obra do homem, não leva a verdades absolutas e por isso as suas informações não podem ser dogmatizadas, ao contrário do que muitas vezes tem acontecido na Igreja
As relações da hierarquia com os fieis tem usado e abusado da autoridade dogmática e utilizado pouco a formação e o dialogo.

O PECADO ORIGINAL EXISTIU?

O pecado original passou-se tal qual como está descrito na Bíblia? Não me parece possível, tratando-se certamente de uma alegoria.
Tratar-se-ia de uma situação simbólica em que Deus teria dado a escolher ao homem viver na contemplação de Deus ou viver na liberdade.
A escolha da liberdade tornou-se assim um marco fundamental na vida do homem
Ao escolherem a liberdade, simbolicamente representada pela comida da maçã, Adão e Eva abriram o mundo ao bem e ao mal, que surgiu quase imediatamente com Caim e Abel.
Se Deus não respeitasse a nossa liberdade e acabasse radicalmente com o mal, transformar-nos-ia em autómatos a viver uma vida tranquila mas sem interesse e sem mérito
A Igreja a partir da altura em que se aliou ao poder foi perdendo o seu principal bem que Deus nos concedeu – a liberdade.
Foi impondo aos fiéis uma multidão de normas, perseguiu e matou os opositores e provocou cisões por falta de diálogo e de tolerância como foi o caso do arianismo, ortodoxia e protestantismo.