domingo, 13 de junho de 2010
Pecado original
O que diz o Génesis?
Criação do homem
Façamos o ser humano à sua imagem e semelhança (…) Ele os criou homem e mulher
Gn1, 26-31
LUCAS CRANACH
http://en.wikipedia.org/wiki/Adam_and_Eve
BLAKE- Adão e Eva dormindo
http://www.wga.hu/index1.html
Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida
Gn2-7
ALLORI
http://www.wga.hu/index1.html
O Jardim do Eden
Depois o Senhor Deus plantou um jardim no Eden (…) e fez brotar da terra toda a espécie de arvores agradáveis(…) assim como a arvore do conhecimento do bem e do mal
Gn 1, 4-16
JAN BRUEGHEL
http://www.wga.hu/index1.html
A tentação da serpente
Em Gn 3, 1-6 descreve-se a tentação da serpente
ABILDGAARD
http://www.wga.hu/index1.html
Illuminated parchment, Spain, circa AD 950-955, depicting the Fall of Man, cause of original sin.
http://en.wikipedia.org/wiki/Original_sin
Cranach, o Jovem
http://www.wga.hu/index1.html
O castigo de Deus( Gn 13, 14-24)
Deus obrigou-os a “arrancar alimento através de penoso trabalho” e para a mulher aumentarei os sofrimentos da tua gravidez
Crabeth
http://www.wga.hu/index1.html
Em seguida expulsou-os do jardim do Éden
MASACCIO – Expulsão do Jardim do Éden
http://www.artchive.com/viewer/z.html
Expulsion from Paradise", marble bas-relief by Lorenzo Maitani on the Orvieto Cathedral, Italy
http://en.wikipedia.org/wiki/Garden_of_Eden
Adam and Eve expelled from Eden, detail of a Baroque pulpit.
http://en.wikipedia.org/wiki/Adam_and_Eve
O pecado original existiu como hoje é apresentado?
A Bíblia nunca fala no pecado original nem da transmissão desta falta de Adão e Eva através das gerações.
Embora S. Paulo aborde vagamente o tema (Rom.5, 13-21) o conceito deve-se a S.Agostinho- todo o ser humano nasce marcado pelo pecado original que só poderá ser apagado pelo baptismo.
Esta ideia que não deveria passar duma posição filosófica, e portanto falível, foi instituída erradamente pela Igreja como verdade absoluta.
Pode encontrar informações detalhadas em:
http://www.newadvent.org/cathen/11312a.htm
http://www.bbc.co.uk/religion/religions/christianity/beliefs/originalsin_1.shtml
http://www.theologicalstudies.org.uk/pdf/sin_parker.pdf
Argumentos contra estes conceitos
Para mim, há pelo menos dois argumentos que me levam a não aceitar estes conceitos
• É difícil aceitar que um Deus que embora todo poderoso é essencialmente misericordioso, tenha condenado num acesso de ira todas as gerações a uma condenação para um acto que elas não cometeram
• Os estudos actuais sobre a evolução mostram que a mutação que formou o homem não se passou num individuo mas sim numa população e por isso surgiram simultaneamente vários Adãos e Evas
Que ilacções tirar desta história
É evidente que este relato não corresponde à realidade. À boa maneira semita é uma história para nos levar a tirar conclusões.
Quais as conclusões que podemos tirar?
O contacto com a arvore do conhecimento representa ter sido dado ao homem o conhecimento do bem e o mal e a capacidade de optar livremente entre o bem e o mal.
Discutiremos noutra sessão, a propósito do juízo final, as consequências destas opções
domingo, 6 de junho de 2010
As mulheres no ceistianismo
Embora não se possa dizer que no judaísmo houvesse igualdade entre homens e mulheres, Cristo tratou as mulheres como iguais
Todavia a menção a mulheres, nomeadamente a mãe de Jesus e Maria Madalena não se encontra nem sequer uma vez nos textos dos apóstolos
Razões
A teologia cristã foi penetrada por um certo platonismo que valorizava o espiritual em detrimento do carnal
S.Agostinho, talvez como consequência do seu percurso espiritual via no desejo sexual o símbolo do pecado original
O gnosticismo com o culto da deusa, muito espalhado nos primeiros séculos, trouxe o receio para mim totalmente infundado, que santificar mulheres poderia ser considerado o prolongamento do culto da deusa
Por esta razão Maria foi considerada mãe de Deus e mais tarde veio o dogma da Imaculada Conceição, retirando-lhe assim as suas características humanas
A Inquisição
A Inquisição católica publicara o livro que podia sem exagero ser considerado o texto mais ensopado em sangue de toda a história humana, Malleus Malleficarum – ou o Martelo das Bruxas - alertava o mundo para os perigos das mulheres livre-pensadoras e ensinava o clero a descobri-las, torturà-las e destruí-las. Pertenciam ao grupo das que a Igreja considerava bruxas todas as eruditas, sacerdotisas, ciganas místicas, amantes da natureza, as recolectoras de ervas e qualquer mulher “ suspeitosamente sintonizadas com o mundo natural”. Também as parteiras eram mortas por usarem os seus conhecimentos de medicina para aliviar as dores do parto – um sofrimento, afirmava a Igreja, que Deus muito justamente impusera às mulheres como castigo por Eva ter partilhado o Fruto do Conhecimento, dando assim origem à ideia do Pecado Original. Durante trezentos anos de caça às bruxas, a Igreja queimara na fogueira, uns estarrecedores cinco milhões de mulheres
Dan Brown
O número apresentado por Dan Brown está francamente exagerado
Calcula-se que terão sido condenadas por bruxaria 30 a 50.000 pessoas, das quais 75% eram mulheres. A maior parte das condenações foi feita por tribunais civis
Num estudo de 2004, consultando os arquivos secretos do Vaticano, concluiu-se que a inquisição condenou à morte cerca de 100 bruxas
O livro Malleus malleficarum foi editado a título privado em 1486, nunca tendo sido utilizado pela Inquisição
Teve várias edições principalmente na Alemanha onde não havia inquisição e muitos estados eram protestantes
Em http://www.sacred-texts.com/pag/mm/
encontra uma tradução inglesa deste livro
Antes do século IX havia uma crença popular que acreditava que havia pessoas más, particularmente mulheres, que se dedicavam a matar outras por magia negra e feitiçaria
Esta crença continuou e recrudescia quando surgiam catástrofes como grandes epidemias mortais ou incêndios devastadores
Destas 30 a 50.000 condenações ¾ foram na Europa
Embora tenha havido condenações em muitos países , com maior expressão na Polónia, Holanda e Belgica, a maior parte das condenações foi feita na Alemanha
Pode encontrar estudos detalhados em
http://www.religioustolerance.org/wic_burn2.htm
Situação actual
Esta posição nunca afectou os crentes pois estes sempre veneraram Maria e Maria Madalena
Outras santas que passaram a fazer parte da liturgia, enalteceram o papel da mulher na Igreja
O melhor conhecimento da sexualidade e outras interpretações das Escrituras, retirando a associação da mulher com o pecado original e dando valor espiritual ao diálogo dos corpos, colocou a mulher no lugar que lhe pertencia
Algumas religiões secundarizam ainda a mulher assim como algumas tradições e costumes
Há muito menos mulheres na politica e nos negócios, embora haja mulheres de sucesso
Na religião católica não há mulheres padres
Embora ainda haja um longo caminho a percorrer, a evolução que se vai efectuando coloca-nos numa posição correcta que nos permite vaticinar grandes progressos
domingo, 30 de maio de 2010
Casam,entos interreligiosos
Será possível noivos de religiões diferentes serem felizes no casamento?
Para dar uma resposta temos que considerar vários factores.
Fundamentalismo
Será certamente o maior inimigo dum bom entendimento.
O fundamentalista acredita firmemente que a sua religião é a única verdadeira e que quem não a pratica é herege.
Não aceita que cada um detem apenas uma parte da verdade correspondente à grandeza infinita de Deus e que o que é preciso é uma fé sincera, honesta e coerente que leve a amar e respeitar todos.
Notemos que não há apenas um fundamentalismo religioso – existe tambem nos domínios do desporto e da politica.
Respeito pelo outro
Se o outro não for considerado um ser igual e com os mesmos direitos e deveres indepentemente das diferenças de religião, o diálogo e a vida em comum serão difíceis.
Secundarização da mulher
Se entre católicos e protestantes é aceite a igualdade entre homens e mulheres , o mesmo não se passa no judaísmo e muito particularmente no islamismo.
No islamismo a mulher é totalmente marginalizada e secundarizada, sendo-lhe impostas limitações
totalmente inaceitáveis para uma mentalidade ocidental
Imposição de costumes
Em todas as religiões, mais numas que noutras, muitos costumes foram transformam em normas.
Educação religiosa dos filhos
Este é um ponto muito fraturante.
Quando nasce o primeiro filho cada um quer impor a cerimónia religiosa ao filho, em vez de seguir a única solução possível para o casal – deixar os filhos escolherem quando adultos.
Importância do dialogo e do amor
Estas questões são impeditivas de levar a um casamento feliz entre noivos de religiões diferentes?
É importante que os noivos dialoguem abertamente e com amor sobre os pontos que os dividem, o que só se resolverá com múltiplos compromissos e cedencias sobre atitudes a ter durante toda a vida em conjunto.
Se o fundamentalismo for levado a um extremo, não haverá cedências e a felicidade será impossível
Se o amor moderar o fundamentalismo ou os noivos forem moderados nas suas ideias religiosas, é possível construir a felicidade
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
CRISTO E MARIA MADALENA
No Código da Vinci, Maria Madalena torna-se na peça fundamental do romance.
Terá ela casado com Cristo e terá tido descendência ligada à dinastia merovíngia e da qual Plantard seria um descendente?
Esta ideia não nasceu com Dan Brown, mas com Lincoln, Baigent e Leigh
Em 1969 o actor e escritor de ficção científica Henry Lincoln leu Le trésor maudit de De Sèze que o inspirou
Diz ter descoberto mensagens codificadas falando da morte de Dagoberto II e do seu tesouro.
Fez dois documentários para a BBC sobre o mistério de Rennes-le-Chateau
Em resposta a de Sèze afirmou que foi ele que descobriu os Dossiers Secrets
Associou-se com Baigen e Leigh e no seu primeiro livro Dossiers of Henri Lobineau consideram os dossiers como verdadeiros e escritos por Plantard e Cherisey com o pseudónimo Philippe Toscan du Plantier
No livro Santo Sangue, Santo Graal desenvolvem a ideia do casamento e descendência de Maria Madalena, tema retomado e ampliado por Dan Brown
Lincoln, Baigent e Leigh processaram Dan Brown por plágio, mas perderam o processo
Notemos por curiosidade que o nome de Sir Leigh Teabing é composto pelo nome de Leigh e pelo anagrama de Baigent
Numa entrevista dada em 3 de Fevereiro de 2005ao Channel Four disse que o casamento de Maria Madalena era apenas uma hipótese:
Quem era Maria Madalena?
Maria Madalena em si não é uma personagem única
No Evangelho aparecem em citações diferentes Maria de Magdala, Maria de Betania e a pecadora
· Entre elas estava Maria de Magdala
Mt 27,55
· Maria de Magdala e a outra foram visitar o sepulcro
Mt 28,1
· Entre elas Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e José
Mc 15, 40
· Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios
Lc 8,2
· E uma mulher chamada Marta recebeu-a em sua casa. Tinha uma irmã chamada Maria
Lc11, 38
Para lá de Maria de Magdala e Maria Madalena surge ainda a pecadora, a que a tradição também atribuiu o nome de Maria Madalena
Nas origens, os Padres da Igreja mantiveram a distinção entre as três mulheres.
Desde os princípios do século III DC a tradição identifica Maria Madalena com Maria de Betania, com Maria de Magdala e com a pecadora, aglutinando estas três personagens num culto único da pecadora
Em 1516, Luísa de Sabóia, mão de Francisco I pediu a François du Moulin de Rochefort para escrever um livro sobre Maria Madalena. Este, atendendo à dificuldade de saber de quantas personagem se tratavam, pediu apoio ao seu mestre Jacques Lefèvre d’Étaples
Após um estudo profundo e apoiado pelos primeiros Padres da Igreja como Origenes, Crisóstomo, Jerónimo e Ambrósio, Lefèvre concluiu contra a corrente conservadora da época
A polémica instalou-se e não abrandou mesmo após Lefèvre ter reduzido as Marias para duas - Maria de Magdala e Maria de Betania
Chamado a intervir o para Gregório I (Gregório o grande) declarou que Maria de Magdala, Maria de Betania e a pecadora eram a mesma mulher.
Sugeriu-se que com esta interpretação errada o papa quisesse combater a devoção cada vez maior a Maria Madalena, contrária à linha cada vez mais patriarcal que a Igreja estava a seguir
O dia dedicado a Maria Madalena até 1969 celebrava Maria Madalena como penitente. A partir de 1969, Maria Madalena não é mencionada como pecadora
A maior parte dos artistas retrata Maria Madalena como pecadora que se arrependeu.
Os evangelhos apócrifos gnósticos e o casamento de Jesus
Definição de apócrifo
Os evangelhos apócrifos são textos que não pertencem aos canónicos, ou seja, os aprovados pela Igreja e reunidos na Bíblia
Existem escritos apócrifos no Antigo e no Novo Testamento
Cultivam os mesmos géneros literários – evangelhos, actas, epístolas, apocalipses
Alguns foram considerados heréticos por defenderem teses não aceites pela maioria
Definição de gnose
É um movimento filosófico e religioso que teve grande desenvolvimento nos primeiros séculos
Propõe o dualismo entre um Deus bom que criou a alma imortal e um Deus mau ou demiurgo que criou o mundo físico e aprisionou a alma no corpo
A salvação não seria para todos mas só para os iniciados
O Evangelho de Filipe e o casamento de Jesus
· Maria Madalena estava grávida na altura da crucifixão. Para garantir a segurança do filho ainda não nascido de Jesus Cristo, não teve outro remédio senão fugir da Terra Santa. Com a ajuda o tio de Jesus, José de Arimateia chegou a França, nessa altura conhecida por Gália, onde encontrou refúgio seguro entre a comunidade judaica. Foi aqui, em França, que deu à luz uma filha que se chamou Sara
Dan Brown
A passagem mais importante é citada por Dan Brown
· E a companheira do Senhor é Maria Madalena. Cristo amava-a mais que a todos os discípulos e costumava beija-la muitas vezes na boca. Os outros discípulos sentiam-se ofendidos e por isso expressavam a sua indignação. Perguntavam-lhe: “Por que é que a amas mais do que a todos nós?”
Este texto não prova que Maria Madalena seja a mulher de Jesus
Esta afirmação não se encontra em mais nenhum outro evangelho apócrifo
O significado da palavra companheiro
Em continuação da citação do Evangelho de Filipe, Sir Leigh Teabing afirma no Código da Vinci
· Como qualquer estudioso do aramaico lhe dirá, a palavra companheira, naquele tempo, significava literalmente esposa
O Evangelho de Filipe está escrito em copta e não em aramaico
Em grego companheiro significa apenas companheiro – p.ex. S.Paulo fala no companheiro de Filomenon
Em aramaico não há nenhuma palavra que signifique simultaneamente companheiro e esposa
Para os gnósticos, que desprezavam a sexualidade, só poderiam compreender as relações homem-mulher como companheirismo para a preparação da salvação. Companheira seria sinónima de colaboradora
Jesus beijou Maria Madalena na boca?
O original do Evangelho de Filipe estava muito maltratado, faltando muitas palavras
Neste caso concreto no original estava escrito beijando-a em…tendo sido a palavra boca acrescentada pelos estudiosos do texto para preencher o espaço que faltava
· You should know that because the poor quality of the papyrus, a word or two is missing in the original. The text reads “Jesus kissed her often in the (blank)”So scholars fill in the blank with the word mouth, face or forehead, etc... Actually for all we know, the text might have said “the hand” or even “ the cheek “since the statement implies that he also kissed his other students
E.W.Lutzer
Significado da palavra beijo
É uma iniciação sobre as núpcias espirituais entre Deus e a alma humana
Estas núpcias realizam-se pelo sopro ou pneuma que comunica Cristo aos seus verdadeiros discípulos
Em muitas passagens deste evangelho, abraço e beijo são palavras usadas para transmitir o sopro ao iniciado
Alem disso em hebreu beijo significa respirar em conjunto
Neste contexto místico Maria Madalena aparece mais como o discípulo perfeito que como a amante de Cristo.
O casamento no Evangelho de Filipe
Este evangelho como todos os evangelhos gnósticos defende um casamento sem sexualidade
· If there is a hidden quality to the marriage of defilement, how much more is the undefiled marriage a true mystery .Is not fleshy but pure. It belongs not to the desire but to the will
Extraido de http://www.gnosis.org/naghamm/gop.html
No mesmo evangelho lê-se
· free men and virgins are those called Christians that possess the resurrection, the cross, the light and the holly spirit opposed to animals, slaves and defiled women
O celibato de Jesus
· O decoro social da época praticamente proibia que um judeu adulto não fosse casado. O costume judaico condenava o celibato, e a obrigação de qualquer pai era procurar uma esposa adequada para o filho
Dan Brown
· Não temos o direito de levar connosco nas viagens, uma mulher cristã, como os restantes Apóstolos?
I Cor. 9,5
Esta citação mostra que a igreja não procurava esconder que os apóstolos estavam casados e que tinham esse direito. Não haveria portanto motivos para esconder o casamento de Jesus.
Sugeriu-se que como Jesus funcionava como se fosse um rabino, deveria estar casado, como era habitual nos judeus.
Todavia Jesus não era tecnicamente um rabino, era antes alguém que pregava não seguindo muitas vezes a ortodoxia e sem lhe ter sido atribuído algum título. É por esta razão que os judeus perguntaram a Jesus com que autoridade dizia certas coisas
· E perguntaram-lhe: “com que autoridade fazes estas coisas?
· Quem te deu autoridade para as fazeres?
Mc 11,28
Por outro lado Jesus fala do celibato por vocação, dos eunucos do Reino de Deus
· Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmo, por amor ao Reino dos Céus
Mt 19, 12
Nalguns sectores do judaísmo, defendia-se o celibato como vocação. Era o caso da seita dos essénios, como se tornou manifesto nos Manuscritos do Mar Morto
Será lógico aceitar o casamento de Jesus?
É difícil dar uma resposta a esta questão porque implica interrogar os desígnios de Deus
Deus não é homem e por isso não podemos entender a sua lógica. Para nós o mistério da Santíssima Trindade é incompreensível e impenetrável.
Deus fez aparecer no mundo um seu Filho, não gerado, igual a ele (consubstancial no Credo)
Alguém sendo a matéria de Deus, poderia ter casado e ter filhos.
Cristo veio ao mundo para sofrer com os homens e pregar uma mensagem de salvação que acabaria com a morte na cruz. Tratava-se de uma missão temporal que acabaria com a sua morte.
Nesse sentido faria sentido casar? Acho que não. Cristo não era totalmente homem. Não estaria inclinado para o amor humano – só sentiria amor pelo Pai. Não faz sentido a procura do prazer carnal pois isso seria uma característica totalmente humana.
E ter filhos? Como entender ter filhos que seriam “ netos” de Deus sem qualquer missão a cumprir?
Se entendêssemos que Cristo era um ser humano era um ser humano divinizado por Constantino ou um deus secundário como pretendem os gnósticos seria possível.
Creio que para responder a esta pergunta seria preciso responder a outra – quem foi Cristo? Teria sido apenas um ser humano, um profeta, ou seria filho de Deus? Só a fé poderá responder a esta questão.
domingo, 18 de janeiro de 2009
A PESSOA CRISTO
A assunção que Cristo é filho de Deus é o mistério fundamental da fé cristã e portanto indiscutível. Este facto não impede que se tenha raciocinado sobre este mistério para o entender melhor mas é preciso não esquecer que se tratarão de ideias elaboradas pelo homem e que por mais categorizado que seja o pensador poderão estar ou não certas e nunca poderiam ser elaboradas como dogmas.
Eu penso que Cristo, vindo na eternidade, veio passar na terra um tempo previamente estabelecido para cumprir uma missão cujos resultados sempre conheceu.
Como seria esta harmonia perfeita Deus-homem. Seria um Deus com aspecto exterior de homem
Ou um Deus com um sopro de Deus?
Para mim só a primeira hipótese é de considerar. Antes de vir à terra Cristo já existia assim como continuou a existir depois de ter morrido.Com esta premissa, artigo de fé, Cristo teria sido plenamente Deus embora na sua fase terrena tivesse aspecto de homem.
Mas Cristo teria uma biologia igual à nossa?
Os Evangelhos não dão a mínima resposta a estas questões.
Cristo teria o mesmo património genético que nós? Cristo teria tido dores? Cristo terá sofrido?
Atendendo à missão de Cristo o património genético não existiria. Os genes garantem a transmissão de algumas características através das gerações, facto que não se enquadra na missão de Cristo
Cristo teria nervos que transmitissem sensações dolorosas? Não temos qualquer dado que nos permita responder. Poderemos pensar que se o objectivo da dor é avisar o organismo de uma lesão este mecanismo em Cristo seria desnecessário
Cristo terá sofrido na cruz? Não me parece. A sua morte representava o fim da sua missão na terra.
Cristo, tendo sempre como Deus a visão da eternidade, não poderia sofrer.
· Geração por relações conjugais
· Geração por partenogénese – divisão do ovo sem participação dos espermatozóides
· Intervenção divina total de um modo desconhecido
Para mim só a última hipótese pode ser correcta. Se Cristo tinha uma estrutura biológica diferente, a sua geração também teria que ser diferente
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
DEUS FALA AOS HOMENS
Através dos tempos Deus tem mandado mensageiros para sugerir um caminho correcto. Fruto da liberdade que nos concedeu, teremos sempre a liberdade de aderir ou não à mensagem transmitida.
A história bíblica é rica nestes exemplos. Surgiram os patriarcas que ao mesmo tempo que revelaram a mensagem de Deus foram lideres militares que conseguiram libertar o seu povo, a que se seguiram os reis. À medida que os reis se foram desviando surgiram vozes críticas que tomaram corpo com as figuras notáveis dos Profetas
Cristo talvez possa em parte ser considerado como o ultimo Profeta. Deus mandou o seu próprio filho para salvar o homem.
A mensagem de Cristo foi uma continuação das mensagens dos profetas. Não seguiu apenas o Antigo Testamento, mas acrescentou-lhe ideias novas.
Não pregou apenas para o seu povo, nem aceitou como os Patriarcas ser líder de uma guerra de sobrevivência.
Ao contrário do judaísmo pregou uma religião universal, que foi difundindo para outros povos, religião fundada na fé, na esperança e na caridade.
Para muitos judeus Cristo não foi aceite pois esperavam um Messias guerreiro que os libertasse dos romanos. A religião apesar desta oposição, espalhou-se rapidamente não só na Judeia mas em vários países
Será que depois de Cristo Deus deixou de mandar mensageiros e abandonou o homem à sua sorte?
Não me parece. Deus surgiu através das aparições e dos santos
Embora não conteste as aparições, elas têm mais um aspecto emocional, e algumas são contestadas.
Os santos, reconhecidos ou não, são um exemplo real que é possível viver uma vida com sentido. Muitos denunciaram e combateram erros e lutaram para o bem da humanidade -lembremo-nos entre outros de S. Francisco de Assis, madre Teresa de Calcutá, padre António Vieira
A criação do mundo é intrigante e incompreensível. Nós só podemos compreender a acção de Deus atribuindo-lhe intenções e objectivos, como se fosse um ser humano
Para quê que Deus criou o mundo e por que é que o criou assim.
Mantendo-nos apenas na criação dos seres vivos, a ciência vai-nos fazer recuar para a origem da vida. Seja como for, é certo que os seres vivos têm todos a mesma origem e se diferenciaram pela evolução
Quer dizer, os seres não surgiram perfeitos, foram-se transformando através dos tempos para se adaptarem ao meio ambienta
Ao mesmo tempo maravilho-me com a beleza da criação e interrogo-me sobre o inexplicável. Ao optar comer a maçã adquirimos o conhecimento, mas ele não nos permite interpretar Deus.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Basta-me falar com Deus????
Basta-me falar com Deus ou preciso de aderir a um rito, de participar em comunidade na presença e adoração de Deus?
O homem é um ser que vive com os outros, que necessita de comunicar e para tal usa uma linguagem que acompanha com gestos e expressões. Para ele os sinais são importantes, podemos dizer que há uma linguagem dos sinais – sinais de afecto (ramo de flores, abraço, beijo, etc.) ou sinais de zanga
É por esta razão que o homem tem a necessidade de um exercício exterior da sua fé, para com outros em conjunto procurar estar com Deus, adora-lo, ouvi-lo
Para os cristãos a forma por excelência da participação colectiva é a missa.
A missa é um memorial de Cristo. Nela recordamos que Cristo foi um Deus feito homem que veio ao mundo para transmitir uma mensagem transcendente, que morreu e que ressuscitou
A missa não é assim a recordação de um enterro ou de uma morte, mas é a celebração da vinda à terra do filho de Deus
A missa deve assim ser praticada com alegria e ao mesmo tempo ser um meio de aumentar a nossa força para seguir os ensinamentos
A missa seja em que condições for celebrada tem o valor de memorial e permite a celebração colectiva.
Todavia a mensagem e vivência frutificam mais em condições óptimas.
A missa é um acto de alegria. Para isso as igrejas devem ter luz, os cânticos devem ter animação e toda a celebração deve ser viva
A missa deve levar até Deus. A cerimónia deve-nos encaminhar para a Eucaristia, razão de ser primária da missa e todos os textos utilizados deveriam ser simples, claros e compreensíveis
A homilia deveria ocupar um lugar fundamental na formação e meditação mas para isso deveria ser compreensível e curta
A igreja é o local do culto e foi construída para tal objectivo. As igrejas antigas com a sua grande altura e a sua arquitectura facilitavam a oração.
Tinham porem dois grandes inconvenientes
Um é a falta de luz. As igrejas não tinham janelas ou quando havia aberturas estas estavam preenchidas com vitrais. Estava subjacente a ideia que para participar na missa ou para orar, os fiéis não deveriam ter qualquer contacto com o exterior. Parece-me que a falta de luz impede a alegria própria da nossa situação de crentes.
Uma outra questão é a sumptuosidade. Muitas igrejas, embora autênticas obras de arte, esmagam pela sua grandiosidade e chocam pela sua riqueza
A missa está centrada na Eucaristia como sequência de um pedido de Cristo – sempre que o fizerdes, fazei-o em meu nome.
Terá a missa o ritmo e a forma adequados aos tempos modernos? Eu penso que não. A última reforma profunda da missa deveu-se julgo eu, a S. Tomás de Aquino. Trata-se de um trabalho notável que ainda hoje é totalmente válido. Todavia, muitos textos são muito formais e de compreensão difícil, Em muitas igrejas os cânticos não têm ritmo. Por vezes as homilias são demasiado longas.
Notemos porem que alguns padres conseguiram com inteligência superar estes problemas criando missas bem participadas
Ao falar do culto cristão vem logo à cabeça a figura do padre. O padre é um homem, tão humano como nós, que se sentiu chamado por Deus para servir os crentes e todos os homens
Os padres devem casar? Eis uma questão para que não tenho resposta. O padre fez um voto de castidade para se dedicar totalmente a Deus e a igreja. Viveria assim livre doutras preocupações ou desejos materiais e sem a pressão de una mulher que poderia não compreender a sua missão. Todavia nem sempre é assim. Por vezes o padre no decorrer na vida vê que voto não lhe foi bem explicado ou que as circunstancias mudaram, casa-se e abandona o sacerdócio. Outras vezes, o que é pior, junta-se com alguém ou pratica aberrações como a pedofilia
Podemos pensar que as razões que apontamos para o celibato dos padres não são absolutas e poderão não estar certas. O facto é que vemos padres protestantes caçados que são exemplares e padres católicos celibatários que são uma vergonha.
Julgo que se deveria fazer um debate amplo sobre este tema
Faz sentido as mulheres não poderem exercer o sacerdócio? A recusa actual parece-me uma herança da tradição judaica em que a mulher é colocada num papel secundário, ideia que ainda hoje se mantém nas práticas religiosas judaica e islâmica.
As religiosas são muito mais respeitadas pelo povo que os padres. Muitas religiosas têm feito trabalho meritório, generoso e dedicado. Algumas mostraram ter uma grande cultura religiosa.
Parece-me que é uma situação a ser revista
A oração é uma peça fundamental do culto. Trata-se de nos dirigirmos a alguém que não tem dimensão, não ocupa espaço – está em toda a parte -, não vive no tempo – vive na eternidade. É um diálogo entre um ser visível todo insignificante e um não ser invisível, todo-poderoso.
Pode-se fugir em parte a esta dificuldade recorrendo à intercessão de Nossa Senhora ou dos Santos.
Eu por mim prefiro tentar embora com dificuldade dirigir-me directamente a Deus – ajuda-me a entender melhor o Grande Mistério.
A oração tem um lado contemplativo e dialogante vem que contemplamos e agradecemos a presença de Deus e em que lhe pomos os nossos problemas e pedimos que nos ajude. Sei que Deus me mandará pistas difusas que terei de encontrar e desenvolver.
Pode haver ainda um lado directamente peticional em que peço directamente a Deus que me resolva um caso concreto. Eu sei que o que me pedirdes será conseguido e que a fé remove montanhas, mas falta-me esta fé plena
O céu e o inferno existem? Haverá um Deus vingador e castigador que castiga para sempre os pecadores
Penso que as descrições bíblicas do inferno são uma alegoria que transmitem uma mensagem.
O destino final da nossa alma é depois da morte do corpo ir para o céu e contemplar Deus. Para o fazer tem que estar livre do que acumulou de mal na sua estadia terrena e por isso será sujeita a um período de purificação em que não contemplará Deus. Este período de não contemplação de Deus será de grande sofrimento e representa o Inferno.
Custa-me considerar um inferno físico com fogo eterno até porque sendo a alma imaterial, ela não é queimada.
Custa-me também aceitar um Deus castigador que condene para uma eternidade
Qual o valor da confissão? Quando fazemos uma coisa mal feita sentimo-nos mal e quanto atingimos outros por vezes andamos com a carga da culpa. Por vezes sentimos necessidade de pedir desculpa.
Compreende-se assim que às vezes sentimos necessidade de pedir desculpa a Deus e sentir que somos desculpados mostrando intenção e arranjando estimulo para uma caminhada melhor
Mas basta pedir directamente a Deus ou devo confessar-me? A mim parece-me que a resposta tem a ver com o equilíbrio psicológico. Se após uma conversa com Deus sinto que fiquei com a alma livre, tudo bem. Por vezes poderei sentir a necessidade de contar as minhas faltas a alguém que me ouça, me aconselha e transmita o perdão em nome de Deus.
Para mim, a confissão é um acto muito útil e indispensável, mas deveria ser voluntária e praticada com o ritmo que cada um achasse conveniente
Cristo não organizou uma igreja, não estabeleceu um rito. Pregou uma doutrina perfeitamente integrada no Antigo Testamento e deixou algumas pistas como a Eucaristia, o Pai Nosso e moral e o significado da mensagem
Cristo ao dizer a S.Pedro tu és Pedro e serás a minha pedra, criou os fundamentos do papado e da organização da igreja, mas não definiu o seu nível de autoridade. A autoridade de Pedro provinha apenas da sua autoridade moral.
Com o tempo e a aliança ao poder, o papado exorbitou no poder e os papas passaram a ter poder temporal, coisa que Cristo sempre recusou
Com o evoluir dos tempos o poder temporal da igreja diminuiu. Hoje está reduzida ao anacronismo do Vaticano e a uma ostentação dispensável.
Os papas actuais são figuras impolutas, cultos e sabedores, que apresentam ideias bem estruturadas. Não invocam a infalibilidade nem excomungam
Devo seguir rigorosamente aquilo que o papa diz? As afirmações do papa devem merecer sempre respeito e consideração e não ser recusadas a priori.
Todavia se depois de muito reflectir não concordar com alguma coisa que não colida com o núcleo fundamental da fé, não sou obrigado a segui-la
Nos primeiros tempos do cristianismo as celebrações eram muito simples. Os cristãos não eram muitos e por serem clandestinos não podiam fazer celebrações públicas. Muitas vezes eram repastos colectivos em que o pão e o vinho eram abençoados para se tornarem corpo e sangue de Cristo e se celebrar a Eucaristia.
Com o aumento do número de fiéis teve que se organizar o rito. É natural que desde o inicio estivesse centrado na Eucaristia a que se acrescentaram, na continuação da tradição judaica, leituras, salmos, orações e cânticos, tópicos que ainda hoje constituem o núcleo da missa.
Todavia hoje perdeu-se muito a vivência da Eucaristia. Há textos acrescentados que embora de alto valor literário são complexos e de difícil compreensão. As homilias na maior parte das vezes são extensas. Em muitos casos a missa tornou-se uma cerimónia longa e enfadonha
Nos textos da missa foi incluído o credo elaborado no concilio de Niceia. O credo foi elaborado no concilio como uma profissão de fé contra o arianismo.
Duvido que um texto tão elaborado tenha tido algum efeito sobre os fiéis mas o que me espanta é que contenha algumas imprecisões que nunca foram esclarecidas ou corrigidas.
Ao dizer-se que está sentado à direita de Deus Pai, devemos imagina-los sentados em duas cadeiras? Mas ao imaginarmos assim estamos a ter uma visão antropomórfica de Deus